Para onde caminha o Ministério Público?

Um novo paradigma: Racionalizar, Regionalizar e Reestruturar para assumir a identidade constitucional. [1]

Márcio Soares Berclaz – Promotor de Justiça do Estado do Paraná.

Millen Castro Medeiros de Moura – Promotor de Justiça do Estado da Bahia.

Síntese Dogmática: A estrutura organizacional do Ministério Público encontra-se à beira do colapso, impedindo-lhe o cumprimento da missão constitucional. Faz-se necessária a implementação de um novo modelo de gestão, baseado em três diretrizes: racionalizar atribuições, estabelecendo prioridades e estratégias para uma tutela mais eficiente dos interesses sociais; regionalizar a atuação, mediante trabalhos em grupo e ações coordenadas, para aperfeiçoar a unidade e o alcance funcional de sua atividade; reestruturar os órgãos auxiliares em busca de um crescimento institucional baseado numa otimização do trabalho dos membros.

“Minha dor é perceber que, apesar de termos feito tudo, tudo o que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais.” (Belchior)

I. Introdução

Em sua origem, o Ministério Público incorporou características próprias de diferentes órgãos do passado, aos quais se incumbiam diversas atividades – promoção da ação penal, defesa do fisco, proteção de outros interesses governamentais, bem como zelo pelos hipossuficientes de modo geral – causa determinante para o surgimento de uma instituição atualmente encarregada de desempenhar amplas atribuições previstas ao longo do sistema normativo. Assim, no seu histórico institucional, de procurador do Rei, passou a advogado dos interesses da Coroa e ainda teve de atuar como patrono da Fazenda Pública, para, enfim, após o advento da Carta da República de 1988, alcançar a posição de guardião da sociedade e imparcial defensor da ordem jurídica e do regime democrático. Todavia, essa traumática transição de identidade do “governo” para a “sociedade civil” deixou múltiplas seqüelas, dentre as quais a percepção de que, por força de um modelo de atuação antigo e ultrapassado, basta percorrer muitas das atribuições ainda formalmente conferidas ao Ministério Público para perceber que sobram intervenções absolutamente incompatíveis e prejudiciais ao cumprimento da elevada e pretensiosa missão constitucional confiada ao Parquet: integrar “a parcela das organizações autônomas responsáveis pela elaboração, difusão e representação dos valores e interesses que compõem uma concepção democrática de mundo e atuam no sentido da transformação da realidade” (GOULART, 2000, p. 22).

Sinalizando esta problemática, a busca incessante e descriteriosa por novos focos de intervenção na esfera cível, ao mesmo tempo em que aumentou simbolicamente a importância da instituição, tornou-a incapaz de atender, com a eficiência esperada, a promoção de demandas socialmente relevantes, norteadas pela escala axiológica prevista no artigo 127, caput, da Constituição Federal. Paralelo a isso, a organização e divisão funcional do Ministério Público de forma vinculada e simétrica ao Poder Judiciário, inicialmente progressista e vantajosa, mostrou-se, com o tempo, paradigma saturado e insuficiente para permitir o cumprimento adequado das suas finalidades, panorama agravado pela precária estruturação humana e material dos seus serviços auxiliares. Outrossim, apesar de a Carta Magna de 1988 ter redesenhado o perfil ministerial, atribuindo-lhe a promoção da Justiça Social e o zelo pela consolidação do Estado Democrático de Direito, a instituição ainda permanece presa a uma estrutura espelhada no Judiciário, razão pela qual urge construir um novo e revolucionário modelo de gestão que lhe atribua uma identidade própria.

Algumas circunstâncias, porém, conspiram fortemente contra essa necessidade: 1) a tradição do “parecerismo”, isto é, da atuação de cunho jurídico-formal, menos comprometida com resultados socialmente relevantes, o que determina a coexistência, ainda hoje, de dois modelos bastante distintos de exercer o Ministério Público; 2) a existência de compromissos, no que diz respeito à Instituição como um todo, com resultados processuais apenas, consistentes em manifestações tempestivas nos feitos a seu cargo; 3) a falta de transparência no tocante às metas institucionais, aos critérios de atuação e aos resultados alcançados; 4) a inexistência, por um lado, de mecanismos eficientes de estímulo ao merecimento e, por outro, de um sistema que permita a imposição de responsabilidades individuais e coletivas, próprias de verdadeiros agentes políticos (FERRAZ, 2003, p. 56).

É preciso reformular boa parte das premissas gerenciais até aqui vigentes, não raras vezes reproduzidas sem maior senso crítico ou mesmo preocupação com uma política institucional e um planejamento estratégico voltados à priorização das atividades extraprocessuais de defesa dos direitos fundamentais em detrimento de intervenções envolvendo minúsculos interesses judicializados. Nesse raciocínio, o projeto de um novo modelo de gestão sustenta-se em 03 (três) eixos fundamentais: racionalização, regionalização e reestruturação de órgãos auxiliares.

A racionalização impõe a compreensão de que, diante da pluralidade de temas remetidos ao Ministério Público, é preciso revisar e filtrar quais as intervenções que, qualitativamente, merecem manter-se incorporadas ao campo de interesse institucional como instrumentos eficazes para implementar positivas transformações na realidade social. Por sua vez, a regionalização, como forma de gestão, assenta-se na idéia de que o princípio da unidade do Ministério Público exige plataformas prioritárias e uniformes de atuação dentro de um planejamento institucional a ser construído com a sociedade, respeitando-se sempre as peculiaridades locais, para estimular maior envolvimento, capacitação e especialização dos Promotores de Justiça. Já a reestruturação de órgãos auxiliares constitui medida imprescindível para superação das dificuldades estruturais e orçamentárias impeditivas à adoção de uma política necessária ao crescimento da instituição quanto aos seus recursos materiais e humanos diretamente relacionados aos órgãos de execução propriamente ditos.

II. Desenvolvimento

II.a. Racionalização de atribuições como forma de incrementar a eficiência na atuação ministerial

Ao instituir o inquérito civil e a ação civil pública, concedendo a titularidade de ambos ao Ministério Público, a Lei n° 7.347/1985 tornou-se marco para uma nova ordem de existência institucional, permitindo a transformação do Promotor de Justiça em verdadeiro agente político. Por meio desses instrumentos e da recomendação administrativa, ao membro ministerial é dado investigar, ajustar interesses conflitantes à sociedade, reprimir e reparar lesões a direitos fundamentais, enfim fazer cessar desrespeito ao texto da Constituição, poder progressivamente ampliado com o advento de outras normas (v.g, Lei 8.078/90) aptas à composição de um microssistema de tutela coletiva. Essa situação consolidou o perfil constitucional extraído da Carta Magna, segundo a qual a defesa de tais interesses indisponíveis exige um Ministério Público pró-ativo, caracterizado pelo sucessivo emprego do verbo “promover” nos quatro primeiros incisos do art. 129, característica bem destacada por COMPARATO (2001, p. 63):

Ora, no Estado contemporâneo, o Ministério Público exerce, de certo modo, esse poder impediente, pela atribuição constitucional que lhe foi dada de impugnar em juízo os atos dos demais Poderes, contrários à ordem jurídica e ao regime democrático. A isto se acresce, ainda, a nova atribuição de promover a realização dos objetivos fundamentais do Estado, expressos no art. 3º da Constituição, pela defesa dos interesses individuais e sociais indisponíveis, consubstanciados no conjunto dos direitos humanos. A conjugação de ambas essas atribuições, a impediente e a promocional, faz do Ministério Público um órgão eminentemente ativo, que não pode nunca recolher-se a uma posição neutra ou indiferente, diante da violação de direitos fundamentais, mormente quando esta é perpetrada pelos Poderes Públicos.

O Ministério Público pós-1988 precisa superar o modelo demandista, baseado no mero agente processual, que tem como único horizonte a atuação perante o Poder Judiciário. Na linha de evolução institucional, propõe-se “um Ministério Público Resolutivo, que leve às últimas conseqüências o princípio da autonomia funcional” (GOULART, 2000, p. 36), protótipo no qual se espera que o Promotor de Justiça seja realizador de positivas transformações sociais, não apenas um asséptico burocrata capaz de contentar-se com mera atuação processual. É tal postura que merece predominar em todos os campos de atuação.[2]

Diante das prerrogativas inerentes ao cargo e do caráter técnico que determina o ingresso de novos membros à instituição, quanto maior for a aproximação e o diálogo democrático com a sociedade, mais legitimado e resolutivo será o resultado do seu trabalho. Promover audiências públicas, participar de conferências, freqüentar reuniões dos conselhos municipais e de associações de moradores são exemplos práticos de que, para o bom desempenho das atribuições extrajudiciais por meio de uma postura pró-ativa, é imprescindível que o Promotor de Justiça abandone a clausura de seu gabinete e mantenha-se acessível e disponível ao povo, destinatário primeiro e último da atuação ministerial. Atuando como guardião do regime democrático e dos direitos sociais e individuais indisponíveis, deve dar tratamento prioritário a ações capazes de melhorar a qualidade de vida das classes hipossuficientes e de maior vulnerabilidade econômica e social. O atuar ministerial, neste perfil, abre um canal de acesso à Justiça, direcionado à redução das desigualdades sociais, à construção de uma sociedade livre, justa e solidária, objetivos fundamentais da República previstos no artigo 3º da Carta Política.

O promotor de gabinete considera que sua principal responsabilidade é dar conta dos processos legais e pareceres ligados à sua área. (…) O promotor de fatos vê-se não somente como defensor dos interesses e metaindividuais, mas também como o agente que deve buscar soluções para “resolver o problema social” relacionado a tais direitos. A via judicial é evitada, não só pela lentidão e incerteza das respostas do Poder Judiciário, mas porque o promotor de fatos interpreta o seu papel como atividade que transcende o sistema de justiça e requer legitimação na comunidade. Assim, ele atribui grande importância ao trabalho conjunto com organizações não-governamentais, órgãos governamentais e sindicatos. Muitas vezes, coloca-se no papel de articulador de lideranças e organizações locais (SILVA, 2001).

Ora, para maior eficiência da defesa da tutela coletiva, torna-se forçoso um verdadeiro choque de gestão, revisando e reformulando práticas vigentes, pelo que se impõe reflexão crítica e progressiva sobre tradicionais intervenções ministeriais desatreladas de genuíno interesse público. Surge aí, portanto, a necessidade da “racionalização” das atividades ministeriais cotidianas, pois é a partir desta desoneração e do desapego de atividades perfeitamente dispensáveis que o agente ministerial disporá de mais tempo para bem exercer seu papel de ombudsman. À figura de um membro encerrado no seu gabinete, conformado e preocupado em atuar apenas como típico despachante processual, qualificado parecerista, propõe-se a edificação de um Promotor de Justiça transformador, compromissado com os grandes problemas da comunidade na implementação dos seus direitos fundamentais, aprimorando o Estado Democrático de Direito capaz de garantir o aperfeiçoamento da cidadania e condições de vida digna.

Racionalizar, nesta ótica, propõe uma releitura das atribuições ministeriais a partir de um processo de filtragem constitucional capaz de projetar efeitos em toda a legislação ordinária, extirpando a atuação do Promotor de Justiça em intervenções processuais obsoletas, baseadas muito mais numa praxe forense irrefletida do que, propriamente, numa missão constitucional. A oferta de pareceres em feitos de pouca ou quase nenhuma relevância social tornou-se tarefa que consome enorme tempo do membro ministerial, cuja existência, muitas vezes, dá-se por mera tradição, sem reflexão quanto à sua relevância ou adequação ao perfil institucional. O seu preço tem sido muito alto, principalmente para a sociedade, dada a incidência intolerável de desrespeito aos interesses mais básicos desta, que não estão sendo corretamente amparados pelo Promotor de Justiça assoberbado pelo volume processual. Exatamente por isso, defende-se a idéia de que, mesmo nas hipóteses legais de intervenção do Parquet, este precisa verificar se, no caso sob exame, existe, de fato, o interesse público primário que justifique sua manifestação.

(…) o redirecionamento da estrutura humana e material do Parquet para concentração nas causas, atividades e procedimentos que efetivamente apresentem relevantes aspectos do interesse público pode e deve trazer resultados bem mais relevantes a toda sociedade. Inclusive, num segundo momento, poderá propiciar até mesmo a melhora da qualidade da prestação jurisdicional: o reforço da atuação preventiva e extrajudicial do Ministério Público e o incremento do patrocínio de pleitos coletivos tendem a impedir a explosão quantitativa das demandas judiciais individuais ou aquelas decorrentes das deficiências e abusos dos entes públicos (os maiores litigantes do Brasil) (GAMA, 2003, p 179).

Apesar disso, o Ministério Público permanece intervindo em processos nos quais há evidente disponibilidade dos direitos envolvidos ou mesmo interesse puramente individual, como ocorre nas separações e divórcios sem incapazes, habilitações de casamento, usucapião individual, registros públicos, mandados de segurança relativos a meros interesses econômicos, alvarás e inventários sem incapazes, lides de cunho indenizatório ou previdenciário ou relativas a acidente de trabalho, entre outros similares [3]. Embora muitas leis ordinárias taxativamente estabeleçam intervenção ministerial em determinada categoria de feitos, entendendo o Promotor de Justiça que essas normas não foram recepcionadas ou mesmo guardam inconstitucionalidade com o perfil conferido à instituição, constitui seu verdadeiro dever ético-funcional abster-se fundamentadamente de manifestar nesses feitos. Tais normas ordinárias precisam ser relidas e interpretadas em conformidade com os arts. 127 e 129 da Carta Magna: enquanto aquele traça o perfil institucional, este determina que somente se conferirão outras atribuições ao Ministério Público se compatíveis com sua finalidade, ou seja, desde que realmente presente o interesse público [4].

Ressalte-se o fato de que, mesmo quando há razão na intervenção ministerial, as manifestações devem limitar-se ao direito e à causa primária determinantes da intervenção, não incidindo sobre discussões periféricas e disponíveis que surjam no curso do feito (v.g, honorários advocatícios, partilha de bens, impugnação de valor da causa). Em sede de direito de família, por exemplo, forçoso ter em conta que a atuação do Ministério Público deve ser urgentemente redefinida, direcionando foco exclusivo na indisponibilidade de situações existenciais relativas ao valor-fonte da dignidade da pessoa humana (promoção de paternidade, definição de alimentos à luz do trinômio necessidade-possibilidade-proporcionalidade, estabelecimento de guardas e visitas de acordo com o direito fundamental à convivência familiar e dissolução de uniões que gerem reflexos polêmicos na ordem constitucional, como a homoafetiva). “O campo da atuação do Ministério Público nessas causas é só esse: zelar para que não haja disponibilidade indevida do interesse; não é sua tarefa discutir outros aspectos periféricos” (MAZZILLI, 2003, p. 163).

Há quem entenda indispensável oferecer parecer em todas as fases processuais, no entanto a ciência dos principais atos, com eventual manifestação facultativa se necessária, mostra-se suficiente para preservar o interesse público. “Somente o abandono de todas as atribuições sem relevância social e que não coadunam com o atual perfil constitucional tornará possível uma atuação eficiente na área criminal e dos direitos sociais, inclusive com remanejamento interno de Promotores e Procuradores de Justiça, ganhando-se o reconhecimento de toda sociedade” (BORGES, 2000, p. 34).

Aliás, nem mesmo a defesa dos interesses indisponíveis deve escapar ao foco coletivo como objetivo derradeiro de qualquer intervenção ministerial. [5]. Assim, por exemplo, uma eficiente atuação na saúde pública não se qualifica por apenas garantir direitos puramente individuais, ainda que indisponíveis, como um medicamento para determinada criança ou idoso; obtém-se, principalmente, quando, tomando-se conhecimento de um caso isolado, investiga-se a qualidade da atenção ao direito coletivo de acessibilidade à assistência farmacêutica e, a partir daí, outras questões sanitárias, tais como o cumprimento dos indicadores de saúde, o fluxo adequado da atenção básica, a ausência de efetividade no controle social [6]. Nesta linha, bem adverte MAZILLI (2003, p. 168):

(…) o grande campo de atuação do Ministério Público do futuro está mais voltado para as ações de caráter coletivo que para as de caráter individual. Não raro, é nas ações coletivas que o Ministério Público vai conseguir resolver o problema de maior abrangência ou de maior expressão social, assegurando a milhares ou até milhões de lesados o efetivo acesso à Justiça, acesso este que eles jamais teriam por meio de ações individuais.

A racionalização do exercício funcional, apesar da pregressa resistência, baseada mais em argumentos de autoridade do que na autoridade destes argumentos, experimenta, na atual vivência institucional, sentimento diverso, contando com ampla aceitação da classe [7]. É justamente a partir desta visão de preferência à atuação extrajudicial, voltada ao interesse coletivo, que também se percebe a forma míope e assistemática como se estruturam a divisão e a classificação dos serviços ministeriais, seja pela natureza e distribuição dos órgãos de execução e suas atribuições (v. g., dicotomia cível-criminal ainda vigente em muitas Promotorias e Procuradorias de Justiça), seja pela forma de atuação e consolidação do sistema de estatísticas e informações exigidas pela Administração Superior, em especial pelas Corregedorias-Gerais, órgãos cuja fiscalização se preocupa mais com o cumprimento de prazos e a verificação da quantidade de processos submetidos a uma formal intervenção do que, propriamente, com os efetivos resultados advindos da atuação ou mesmo com o cumprimento do planejamento estratégico-institucional.

Por essa deficiente modelagem institucional, por essa estrutura que tem tornado a instituição incapaz de exercer com plenitude as atribuições realmente importantes, compreendem-se os motivos pelos quais, por vezes, costuma-se responsabilizar também o Ministério Público pela deficiência do sistema judiciário, pelo fracasso no combate ao crime organizado, pela violência, pela corrupção da máquina pública, pela falta de resultados efetivos na defesa da probidade administrativa e do meio ambiente, pela insuficiência de políticas públicas infanto-juvenis adequadas, pelo mau funcionamento do Sistema Único de Saúde, pois todas essas são, direta ou indiretamente, atribuições importantíssimas que não vêm sendo eficiente e prioritariamente cumpridas; isso ocorre exatamente porque a instituição se encontra assoberbada e injustificadamente onerada com uma demanda regular contraproducente e inútil, distante da defesa dos direitos sociais, pondo-se à beira da falência.

Assim como crescem, as instituições perdem importância, relevância ou eficácia. Este Ministério Público de hoje não tem assegurado um futuro evolutivo, de expansão ou ‘aperfeiçoamento’. (…) A sua eventual decadência poderá ser gerada pelo surgimento de novas instituições (estatais ou não-governamentais), mais modernas e aptas a atender as demandas de seu tempo (MACEDO JÚNIOR, 2000, p. 330).

Ao contrário do que propagam os opositores da racionalização, esta não consiste em subterfúgio para negligenciar atribuições ministeriais relevantes, e sim se traduz em estratégico método para, através da crítica permanente, conformar a atuação finalística da instituição ao paradigma previsto no artigo 127 da Constituição da República, depurando a atividade ministerial de intervenções desgarradas da vontade constituinte e do real anseio da sociedade. A racionalização não objetiva alimentar o ócio, mas sinalizar que a inércia não-fundamentada no exercício da tutela extrajudicial dos interesses coletivos não mais pode ser regra tolerada pelos órgãos correcionais, dos quais, em vez da absurda visão clássica de priorizar atuação processual individual em detrimento dos sérios problemas coletivos, espera-se mudança de perspectiva na fiscalização e orientação compromissada com a identidade constitucional.

A resistência ao movimento de racionalização na intervenção do Ministério Público como fiscal da lei, tanto interna quanto externa à instituição, abrange desde pensamentos equivocados até ideais mal-intencionados. Equívoco existe por parte daqueles que, ingenuamente, teimam em interpretar o novo com os olhos míopes e assustados de quem viveu (e ainda vive) o modelo “velho” e pré-datado à Lei Maior. Por incrível e paradoxal que pareça, há quem prefira os grilhões e a acomodação das sombras ao medo de ser ofuscado pela dinâmica luz e liberdade que inspira a vida lá fora, como na alegoria da caverna de Platão [8].

Além disso, há pessoas externas à instituição que, ao criticarem abertamente as premissas da racionalização, escondem interesses egoísticos, quando não desejos verdadeiramente escusos de continuar a ver, na rotina do membro do Ministério Público, inofensivo e qualificado “parecerista de luxo”. Para tais indivíduos, torna-se muito mais cômodo apostar na preservação do Promotor de Justiça “despachante processual”, que, se, de um lado facilita, o trabalho rotineiro do Poder Judiciário, por outro, inviabiliza-se para cumprir, com a desenvoltura e comprometimento que a sociedade dele exige, o dignificante papel constitucional de, priorizando a atividade extrajudicial coletiva como verdadeiro ombudsman, contribuir para a defesa e promoção do Estado Democrático de Direito.

Aumentando o desafio proposto, quando se pretende dispensar intervenções desnecessárias para intensificar a resolução de conflitos eminentemente coletivos, por certo que a diretriz de racionalizar serviços traz consigo a necessidade de estabelecer um novo regime de capacitação e mobilização dos Promotores de Justiça, a fim de habilitá-los adequadamente à consecução das metas visadas Assim, como estratégia suplementar capaz de assegurar que a racionalização e desoneração pretendidas servirão para realmente ampliar o foco de atuação do Ministério Público sobre interesses metaindividuais, imprescindível que se cogite uma nova divisão espacial dos órgãos de execução baseada em um critério uniforme e territorialmente concentrado, estabelecido em torno de prioridades definidas, resultados e metas a serem alcançados, enfim, fundada em um novo planejamento estratégico-institucional. Com isso, vem à tona o segundo eixo sobre o qual assentamos o novo modelo de gestão para o Ministério Público: a regionalização.

II.b. Regionalização de Promotorias de Justiça como paradigma de estruturação funcional e aperfeiçoamento do Ministério Público

Até pouco tempo, o Parquet atuava quase exclusivamente perante o Poder Judiciário, ora ajuizando ação penal, ora intervindo em processos cíveis iniciados por terceiros. Buscando crescer e fortalecer-se como instituição, adotou um modelo de equiparação à Magistratura. Se, em relação a direitos e prerrogativas, este tratamento reflexo até pode mostrar-se vantajoso e evolutivo, as marcantes diferenças funcionais entre ser Promotor de Justiça e ser Juiz de Direito exigem distinto molde de composição orgânica, assim como diferenciada forma de atuação funcional.

Já consolidado como instituição autônoma e essencial, o Ministério Público precisa desvincular-se de sua imagem de ator coadjuvante excessivamente atrelado e dependente da resposta do Judiciário, para cumprir sua missão de defensor dos direitos sociais e da democracia, sendo protagonista dentro do seu próprio espaço de atuação e decisão, de modo funcionalmente independente. Como “toda a estrutura orgânica e administrativa do Ministério Público atualmente existente foi concebida e implementada antes das profundas transformações havidas a partir da década de oitenta” (FERRAZ, 2003), é chegada a hora de a instituição libertar-se dos obstáculos impeditivos ao seu progresso, um dos quais reside na equivocada compreensão de que o postulado da independência funcional permite uma atuação individualista e incondicionalmente fragmentada dos órgãos de execução. O verdadeiro sentido desse princípio deve ficar reservado para discussões de caráter técnico-jurídico, jamais podendo servir como óbice à construção de um modelo de atuação ministerial regionalizada [9].

As metas, prioridades e ações definidas nos Planos e Programas de Atuação decorrem da necessidade de o Ministério Público cumprir, por força de imposição constitucional genérica, os seus objetivos estratégicos. Por ser assim, esses Planos e Programas contemplam, necessariamente, hipóteses de atuação obrigatória e vinculam os membros do Ministério Público. Em outras palavras: o membro do Ministério Público que deixa de observar as metas, prioridades e ações estabelecidas nos Planos e Programas de Atuação não pode invocar, em sua defesa, o princípio da independência funcional, pois este princípio não pode servir de escudo àqueles que deixam de cumprir objetivos institucionais constitucional e democraticamente definidos (GOULART, 2005).

Apesar de o Ministério Público ser uno e indivisível, o modelo de gestão vigente não contempla um necessário projeto coletivo; ao contrário, fomenta uma atuação compartimentada e isolada do Promotor de Justiça espacialmente vinculado a uma determinada Comarca (ou Vara), seguindo o já criticado modo de estruturação tipicamente jurisdicional. Os atuais critérios de divisão funcional incentivam uma atuação assistemática e descoordenada dos Promotores de Justiça, o que vem enfraquecendo a possibilidade de a instituição avaliar-se e produzir melhores resultados. Por conta desse isolamento, não se consegue concretizar o planejamento estratégico-institucional, que dita os objetivos prioritários e conjuntos dos órgãos de execução, excepcionada a possibilidade de cada agente ministerial a ele acrescer outras metas de aplicação pertinente à sua realidade.

Com o extraordinário acúmulo das novas atribuições constitucionais, faz-se necessário edificar novos paradigmas. Não basta a racionalização, que pressupõe a assunção de “novas” e relevantes atividades em detrimento de “velhas” e desnecessárias intervenções. Há de se implantar também a regionalização como modelo de gestão por meio do qual o exercício funcional dos órgãos de execução desenvolve-se coletivamente. O princípio da unidade deverá servir como parâmetro para construir um novo modelo de gestão. Assim se diz porque insistir no falido modelo de atuação isolada, desprezando a soma organizada de esforços, significa conformar-se com um Ministério Público incapaz de cumprir suas funções.

A instituição precisa assumir postura pró-ativa, permitindo atuação integrada e complementar entre membros de primeiro e segundo grau, com especial ênfase nas ações de iniciativa do Ministério Público. Metas e prioridades institucionais devem ser construídas de forma democrática, de modo a mobilizar e engajar o comprometimento da classe na sua implementação. Mais do que eleger plataforma estratégica e planificada de atuação, indispensável monitorar e controlar a quantidade e a qualidade do resultado final proporcionado, avaliação fundamental para toda e qualquer gestão minimamente organizada, preocupada não só com o presente, mas com uma visão prospectiva.

A meu juízo, precisamos ter em mira nossa condição de advogados da sociedade, com todas as conseqüências resultantes. Tanto na atividade criminal como na extracriminal, nesta em especial, como autores, a preocupação maior há de ser com o domínio do fato, sem prejuízo da precisão técnica das intervenções nos processos. A fase pré-processual exige muito maior empenho, pois aí amealharemos a maior parte das provas necessárias a um processo bem sucedido. (…) Esses objetivos reclamam estabelecimento de prioridades, simplificação da atuação em autos, trabalho em equipe, controle e acompanhamento de processos mais importantes, contato permanente entre Promotores e Procuradores, ensejando, inclusive, a participação destes desde a fase pré-processual, atuando conjuntamente com o Promotor, indicando caminhos, evitando equívocos, suprindo naturais e compreensíveis deficiências de Promotores que não tenham a mesma experiência (VISCONTI, 2003, p. 251).

Todo esse conjunto de idéias deve ser implementado a partir de um novo e criterioso método de divisão de trabalho e atribuições, verdadeiro projeto de reengenharia institucional, a partir do qual a definição geográfico-espacial em seções (e não necessariamente Comarcas), cada qual abrangendo “núcleos-pólos”, servirá de referência orgânico-funcional para subsidiar todo o aporte técnico, material e humano necessário para a otimização no desempenho das atividades dos órgãos de execução abrangidos em cada macro e microrregião. Não obstante seja recomendável que, para uma eficiente atuação regionalizada, cada núcleo seja gerenciado conjuntamente por Procuradores e Promotores de Justiça com atribuições específicas, aposta-se que, em vez de uma obrigatória e exclusiva concentração de atribuições nesses centros, haja uma coordenação e integração para desempenho do planejamento estratégico-institucional de forma conjugada, concorrente e participativa com os Promotores de Justiça responsáveis pelos órgãos de execução abrangidos. É a partir daí que se obtém verdadeiro ponto de equilíbrio entre a necessidade de coordenar uma atuação regionalizada, devidamente aparelhada sob o ponto de vista técnico e humano, com a importância de preservar (e não enfraquecer) o princípio do Promotor Natural, situação que, ao assegurar e garantir a formação continuada dos membros ministeriais abrangidos, fortalece a idéia de unidade e integração que se espera desta instituição. Assim, seja pela via da designação devidamente motivada, sob crivo e homologação da Administração Superior, seja pela titularização de cargo específico, espera-se que os Promotores e Procuradores de Justiça ocupantes da coordenação em cada pólo regional possam estar preparados para mobilizar, fomentar, auxiliar e subsidiar o gerenciamento e a implementação concreta do planejamento estratégico-institucional, disponibilizando recursos técnicos, humanos e materiais para incrementar o trabalho de todos os colegas vinculados à sua área de atuação, notadamente no trato das atribuições extrajudiciais coletivas. [10].

Além de consolidar o planejamento estratégico-institucional geral, tal sistemática organizativa ainda permite que cada centro ministerial de referência construa democraticamente o seu correspondente Plano Regional de Metas, adaptando e aperfeiçoando o direcionamento das atividades institucionais finalísticas às prioritárias demandas e anseios da sociedade local. Como se vê, uma regionalização estabelecida nesses moldes permite não só a arrojada e eficiente redistribuição administrativa interna dos recursos disponíveis, criando ambiente para cumprimento da identidade constitucional, como também aproxima o Ministério Público da comunidade, o que poderá ser feito a partir de criterioso diagnóstico da realidade local e da realização de audiências públicas, dentre outros instrumentos e espaços democráticos relevantes que fortalecerão a legitimidade da atuação ministerial perante o destinatário de sua atividade: a sociedade.

Por mais que o Ministério Público ainda goze de prestígio junto ao corpo social, por mais que esta entidade ainda alcance resultados positivos na defesa dos direitos do povo, tal situação não há de perdurar por muito tempo se estas conquistas continuarem a ocorrer mais em decorrência de excepcionais iniciativas individuais de seus membros do que como conseqüência natural de um eficaz e aprimorado modelo de gestão. Neutralizar este prognóstico exige o advento de uma nova postura administrativa pautada pela regionalização, afinal, como sabiamente já se disse, “saber ao que se apegar e, sobretudo, resolver os problemas cujas causas já identificamos, é uma urgente atitude e, ao mesmo tempo, uma tarefa a ser pacientemente cumprida, pois só assim poderemos construir, com sucesso, o nosso futuro [11].” Uma das premissas desse novo perfil de atuação envolve o redimensionamento do espaço de atuação do Promotor de Justiça, substituindo a atividade isolada e segmentada, hoje ainda predominante, pela mobilização dialética de grupos e forças-tarefas coordenadas e comprometidas com a importância do trabalho em rede, estabelecendo as chamadas Promotorias de Justiça Regionais.

Promotoria é sinônimo de conjugação de esforços, mas, sobretudo, de estabelecimento de uma responsabilidade coletiva pelos interesses sociais confiados à tutela do Ministério Público. Na Promotoria, o trabalho em equipe coexiste harmonicamente com as atribuições individuais de seus integrantes, pré-estabelecidas em perfeita observância ao princípio do promotor natural. Entretanto, ao lado da responsabilidade de cada um pela parcela dos serviços a seu encargo, surge uma nova responsabilidade, essa geral, de toda a Promotoria, tendo por objeto o planejamento global da atuação, a organização administrativa dos trabalhos, a atividade de prevenção, a defesa, enfim, como um todo, do interesse social numa determinada comarca, distrito ou circunscrição territorial, ou ainda numa determinada área de especialização (FERRAZ e GUIMARÃES JÚNIOR, 1992, p. 14).

Nessa esteira, o Diagnóstico “Ministério Público dos Estados”, realizado em 2006, aponta que 80,7% dos membros mostram-se favoráveis à implantação de Promotorias Regionais, expressiva estatística que bem evidencia o quanto a classe está ansiosa e aberta ao estudo e reflexão crítica sobre a necessidade de se estabelecer a regionalização como uma das diretrizes necessárias ao aperfeiçoamento e modernização de nossa instituição. De uma vez por todas, é preciso apresentar um planejamento estratégico-institucional que assegure o adimplemento do débito político contraído pelo Ministério Público perante o poder constituinte. Ao lado de complexas atribuições, de diversas prerrogativas e direitos para a sua efetivação, chega o momento histórico de construir um paradigma de gestão institucional capaz de assegurar equilíbrio entre a “expectativa” social e os “resultados” objetivamente alcançados.

(…) ao lado desse crescimento, alargou-se o abismo entre o “legal” e o “real”, ou seja, entre aquilo que o ordenamento jurídico, explícita ou implicitamente, preconiza como atribuição do Ministério Público e aquilo que a instituição efetivamente produz em termos de resultados concretos, prestáveis ao resgate de seu múnus constitucional. Pode impressionar, estatisticamente, o número de pareceres e de processos cíveis e criminais deflagrados. Mas, senão insuficiente, tem-se mostrado ineficaz para, no plano real, impedir, por exemplo, o aumento da violência e da corrupção, garantir a dignidade e a presteza dos serviços públicos e proteger o meio ambiente. O abismo persiste. Logo, o Ministério Público está em débito com a sociedade brasileira — política e juridicamente (ALBERTON, 2007).

Com a regionalização, o desenvolvimento deste trabalho em grupo, além de permitir maior uniformidade da ação ministerial e promover a aproximação e edificação de valores solidários entre os seus membros, traz a inexorável vantagem de potencializar e maximizar a excelência dos efeitos obtidos pela instituição, isto é, maior alcance e melhor resultado com menor esforço e menos despesas. Isto porque ela não só favorece a prioridade da atuação extrajudicial na defesa da tutela coletiva como, sobretudo, permite a criação de um arejado ambiente institucional amplamente favorável à troca de informações e à estruturação de novos canais democráticos para discussão, deliberação e planejamento das ações ministeriais passíveis de serem implementadas, respeitando-se os distintos recortes da realidade social.

Mais do que isso, regionalizar Promotorias de Justiça envolvidas na promoção dos direitos metaindividuais otimiza o campo de interação e relacionamento institucional, assim como aloca e disponibiliza novas fontes de recursos humanos e materiais à disposição do agente ministerial para enfrentar os diversos focos de problema surgidos no limite do exercício das suas atribuições constitucionais. Idealiza-se a possibilidade de que as Promotorias de Justiça Regionais possuam uma estrutura humana e material mais completa, com peritos, servidores administrativos, veículos e equipamentos de apoio, os quais seriam utilizados pelos membros das comarcas circunvizinhas no suporte a suas atividades. Enquanto algumas unidades federativas seguem alheias a este perfil e outras o estabelecem de forma tímida, a experiência de alguns Ministérios Públicos Estaduais já se mostra destacada e avançada nesse sentido [12].

Essa nova visão afasta velhas estruturas administrativas e práticas superadas de gestão, sepulta uma atuação marcadamente individual e racionaliza o contínuo crescimento do volume de serviços. Estabelecer prioridades e comprometer-se com planejamento estratégico é, em outras palavras, evitar um efetivo colapso institucional. Assim, a regionalização busca não só promover e aparelhar a ação do Promotor de Justiça na defesa do interesse público, como também evitar que todo um projeto de atuação coordenada, democraticamente discutido com a classe, fique indevidamente retido e retardado de atingir determinado segmento social por eventual postura egoística de omissão e inércia nãofundamentada prejudicial à efetivação da Justiça Social, o que, sem dúvida, estabelece eficiente ferramenta de controle e fiscalização da atuação ministerial na gestão do interesse coletivo [13].

Regionalizar, enfim, consiste em centralizar a captação e discussão de problemas e dificuldades para, a partir daí, descentralizar intervenções ministeriais positivas no plano da realidade social. Com efeito, ao contrário do que possa parecer, em vez de violar o postulado da independência funcional, tal paradigma cria mecanismo democrático e eficiente capaz de assegurar a independência de pensamento e convicção do Promotor de Justiça, associando-o com o princípio da unidade do Ministério Público. Assim, dada a atribuição concorrente, a regionalização, por meio de uma centralização mitigada, ao mesmo tempo em que oxigena a atuação do promotor natural, previne que grandes prioridades e estratégias de ação institucional sejam barradas ou impedidas por falta de vontade, acúmulo de serviço ou mesmo deficiência de capacitação e sensibilidade a respeito de uma determinada situação-problema. Ela favorece a discussão sobre o plano de atuação integrada e a função de cada órgão de execução envolvido, com redefinição de responsabilidades em prol do projeto conjunto.

Como órgão de implementação da estratégia institucional, cabe à Promotoria de Justiça definir os Programas de Atuação Local e de Atuação Integrada, encaminhar à Procuradoria-Geral de Justiça sugestões para a elaboração do Plano Geral de Atuação, propor a constituição de Grupos de Atuação Especial. Como unidade responsável pela implementação da estratégia institucional, a Promotoria de Justiça deve funcionar como órgão local/regional de representação do Ministério Público na articulação de políticas públicas. Deve intervir nos antigos e novos espaços de negociação política como órgão mediador, regulador e corretor das desigualdades sociais e das práticas anticidadãs (GOULART, 2005).

Em verdade, as Promotorias Regionais assemelhar-se-iam a grandes “escritórios de advocacia em prol do interesse público”, nos quais os coordenadores, no que diz respeito à defesa dos direitos coletivos, trabalhariam, de acordo com a necessidade e a área de atuação especializada, em parceria com os titulares das Comarcas vinculadas. Evidentemente, não haveria subordinação, e sim parceria e incessante busca conjunta do cumprimento das metas gerais e locais traçadas após ampla discussão, trabalho a ser coordenado por membros de primeiro e segundo grau lotados na Regional, os quais, em tese, além de facilidade no relacionamento, devem ter condições de compartilhar experiências e difundir acúmulo de conhecimento técnico especializado sobre determinadas matérias com os demais colegas.

Certamente que, como todas as fases e dificuldades próprias à consolidação de um trabalho dialético de grupo [14], implementar o projeto de regionalização como um dos pilares deste novo momento institucional não constituirá tarefa fácil e simplificada, todavia, longe de ser uma idéia passível de ser condensada numa única formatação, ela merece ser mais discutida e adaptada na medida da necessidade e vivência institucional, da realidade de cada espaço, de cada unidade ministerial federativa.

Tão importante quanto definir como será o projeto de regionalização e como se deve estabelecer a racionalização é o aperfeiçoamento dos órgãos auxiliares, essenciais para um modelo de gestão apto a concretizar os compromissos assumidos pelo Ministério Público perante a ordem constitucional, como veremos a seguir.

II.c. Reestruturação e aparelhamento de órgãos auxiliares como forma de crescimento do Ministério Público

Muito já se falou a respeito das múltiplas atribuições ministeriais e da necessidade de priorizar parte destas tarefas para que a instituição possa colher resultados socialmente úteis. Ao lado dessas constatações, foram apresentadas as diretrizes estratégicas da racionalização e regionalização como componentes de um novo modelo de gestão. Todavia, reconstruir o papel ministerial, priorizando a defesa dos direitos coletivos com ênfase na atuação no plano extraprocessual, remete também à constatação da insuficiência de recursos materiais e humanos atualmente disponíveis para a implementação deste novo paradigma. De nada adianta a Carta Magna prever a atuação do Ministério Público nos mais diversos campos sociais se, na prática, na vivência cotidiana da Promotoria de Justiça, como regra, a realidade sinaliza gritante falta de estrutura para o cumprimento desta vocação constitucional, problema indicativo de que esta mudança de perfil precisa ser seguida de uma postura administrativa voltada ao fortalecimento e aparelhamento adequado dos órgãos auxiliares. Assim já anteviu MAZZILI (2000): “acreditamos seja caso de cogitar de uma nova estrutura para as Promotorias de Justiça. Concebemos as Promotorias de Justiça de maneira totalmente diferente (…) cada órgão de execução do Ministério Público deveria ser dotado de estrutura administrativa própria e independente”.

Afastada a indevida parametrização das atividades ministeriais com as afetas ao Poder Judiciário, premissa já sustentada na regionalização, forçoso sustentar a impossibilidade de – na ausência de planejamento estratégico e orçamentário [15] – continuar a proverem-se vagas de Promotores de Justiça apenas porque o Judiciário assim o fez. Para melhor cumprir suas atribuições, o Ministério Público precisa estabelecer novos caminhos, distintos da mera criação de novos cargos de membros, pautando-se em suas próprias necessidades institucionais.

À medida que as atribuições de membros do Parquet se direcionam inequivocamente às áreas preventiva e investigativa, tanto no âmbito cível quanto no criminal, torna-se difícil aceitar que, a cada Vara instalada, corresponda um novo cargo de Promotor de Justiça. Outras soluções de engenharia institucional devem ser buscadas para evitar a similitude estrutural, que somente a tradição e a pouca reflexão podem explicar (DIAS JÚNIOR, 1999, p. 44).

Assim, as políticas institucionais devem ser estabelecidas a partir da detecção efetiva dos principais problemas onde devemos atuar, com utilização dos meios de informação e informatização. Com a coleta das informações adequadas, seria possível delinear planos de atuação de caráter repressivo e preventivo, racionalizando serviços, propondo mudanças legislativas que viabilizem a atuação institucional. Num segundo momento, seria possível priorizar as áreas de maior interesse público, aprimorando o quadro de servidores e estagiários para reservar as tarefas de maior complexidade aos Membros da Instituição, evitando, assim, o crescimento dos quadros funcionais e seus reflexos (GATTO e DORES, 2002, p. 33).

Nessa ótica, dada a realidade das atuais despesas e os rígidos limites de gastos impostos pela Lei de Responsabilidade Fiscal, defende-se, para evitar o caos orçamentário, um padrão administrativo baseado, entre outras premissas, numa clara definição: reestruturar órgãos auxiliares em vez de criar, assistematicamente, mais e mais cargos de novos membros. Ademais, como ganho secundário, essa alternativa também mitigará uma exagerada fragmentação do poder decisório na atividade de órgãos de execução atuantes em matérias sobrepostas, fragmentação essa que prejudica o exercício da atribuição como agente político.

Agentes políticos não fracionam, de forma descontrolada o poder que lhes é atribuído, como acontece no Ministério Público, pela progressiva criação de novos cargos de Promotor de Justiça. (…) O crescimento do Ministério Público, a ampliação de sua legitimação, de seus poderes de ação e, sobretudo, o perfil de agente político que lhe foi conferido reclamam outro tipo de estrutura, inteiramente diferente. Do contrário, os reflexos negativos não serão apenas de caráter administrativo, orçamentário ou salarial, mas também institucional, pela tendência de burocratizar a atuação, inviabilizando a figura do Promotor de Justiça agente político (FERRAZ, 2003, p. 30).

A ênfase na tutela coletiva, como resultado da soma das idéias de racionalização e regionalização na construção de um emancipatório [16] planejamento estratégico-institucional, precisa ter sustentáculo prático na paralela estruturação de órgãos auxiliares [17], compostos por servidores públicos vinculados a estruturado plano de carreira contemplativo da formação de equipes interdisciplinares [18]. O ideal está em que, em vez de, numa só Comarca, existirem diversos Promotores de Justiça atuando na mesma matéria (diferenciados, quase sempre, apenas pela unidade jurisdicional à qual estão “vinculados”), defina-se, com base em critérios metodológicos e dados fornecidos pelo sistema de informação ministerial, qual o número de membros efetivamente necessários para coordenar a gestão de cada categoria de interesse e quantos são os servidores que trabalharão sob a orientação de cada um daqueles. Aos membros (gestores), cabe a coordenação administrativa e técnica quanto à execução; aos órgãos auxiliares (colaboradores), o cumprimento das medidas materiais necessárias para concretização das diretrizes determinadas por aqueles.

Assim, no quadro orçamentário vigente, reputa-se grande equívoco manter política institucional de recursos humanos que incentive desordenado acúmulo e irracional superposição de membros aptos a exercer a função gestora de coordenação e direção da atividade finalística do órgão ministerial quando, de outro lado, faltam órgãos auxiliares e até mesmo mínima estrutura de apoio como meio indispensável ao desenvolvimento do trabalho. O crescimento desordenado não gera uma instituição mais sólida e eficiente; ao contrário, poderá enfraquecê-la, causando evidentes prejuízos para seus integrantes e para a sociedade. Como qualquer time aspirante a vitórias, o Ministério Público não se manterá forte como instituição se possuir excessivo número de membros na equipe de direção, mas faltarem-lhe “jogadores” para a execução da proposta da “comissão técnica”! Derradeiramente indaga-se: como imaginar que uma grande “empresa” responsável pela defesa do interesse público possa realizar profícua “gestão de pessoal” esbanjando cargos decisórios de gerência sem o necessário aparelhamento administrativo necessário para a execução técnico-burocrática do serviço?

Precisamos de Promotores dotados de completa estrutura administrativa. Assim, por exemplo, numa Comarca, dependendo de seu porte, deveria haver uma Promotoria Cível, outra Criminal, uma de ombudsman, uma de meio ambiente, outra do consumidor etc. Cada qual dessas Promotorias corresponderia a um único Promotor, e teria adequada estrutura própria, com assessores jurídicos, advogados, estagiários e demais funcionários, sob direção do Promotor; seria ele o agente político encarregado de tomar as decisões sobre se investiga, se denuncia, se arquiva, se propõe ação civil, se recorre – o mais caberia aos seus funcionários executar, sempre sob sua supervisão, direção ou iniciativa direta ou por ele delegada (MAZZILLI, 2000, p. 190).

Portanto, nesta nova proposta de gestão, não se concebe a manutenção de situações hoje vivenciadas, nas quais o Promotor de Justiça – agente político que deveria ocupar-se de gerir e coordenar as atividades desenvolvidas pela Promotoria como órgão de execução – por força das circunstâncias, acaba obrigado a praticar atos materiais burocráticos e periféricos [19] cuja realização deveria ser destinada a órgãos auxiliares oficiais [20], uma vez que “racionalizar significa valorizar a atuação do Promotor e do Procurador de Justiça, como agentes políticos, freqüentemente aviltadas pelo desempenho de tarefas que poderiam ser cumpridas por funcionários de quadro auxiliares” (FERRAZ e FABRINNI, 2002, p. 71).

Talvez o problema seja sentido mais de perto pelos Promotores que atuam em Comarcas menores (uma ou duas Promotorias), verdadeiros clínicos gerais do Direito, onde o excesso de atribuições conduz a uma análise superficial de tudo que lhe vem com vista e contribui para a baixa qualidade do trabalho de tão importante órgão. Isto, para não dizer em insuficiência, pois, em boa parte de suas ações civis públicas, depara com a complexidade de questões técnicas em relação às quais não tem conhecimento e amparo institucional suficientes para rebater substanciosos argumentos de grandes consultorias “especializadíssimas” (jurídica, contábil, ambiental etc.) que encontra do outro lado da relação processual (MOURA, 2002).

Na definição da política institucional de recursos humanos, urge compreender o Ministério Público não só pelos “olhos” dos membros – promotores e procuradores de justiça – mas também pelas “mãos” dos indispensáveis servidores, uma vez que ambas as categorias, cada qual com suas atribuições, desempenham atividade finalística voltada ao cumprimento da missão constitucional. Nesse sentido, é preciso que as administrações superiores observem que a riqueza do patrimônio humano institucional também se faz pela manutenção de um quadro de servidores intelectualmente qualificados e animicamente estimulados e comprometidos, os quais, tal como ocorre em relação aos membros, também merecem, dentro das proporções e das responsabilidades de seus cargos, toda valorização e cuidado, seja para garantir uma carreira escalonada, seja para estabelecer adequada política remuneratória, seja, enfim, para estimular a permanente formação continuada e capacitação como forma de mobilizar e estimular o corpo funcional.

Todavia, o maior entrave a essa necessária reengenharia reside numa ainda tímida e deficiente política de criação e estruturação de órgãos auxiliares. Tanto é assim que o multicitado “Diagnóstico Ministério Público dos Estados” traz o dado impactante de que, para cada auxiliar do Poder Judiciário, existia apenas 0,07 (zero vírgula zero sete) servidor equivalente do Parquet. Essas mudanças aparentemente radicais, relativas ao incremento dos órgãos auxiliares, são plenamente factíveis, dependendo apenas da vontade política e visão institucional dos que se encontram na Administração Superior, pois podem efetivamente ser implantadas por conta da garantia constitucional da autonomia financeira do Ministério Público (artigo 127, §3º). [21] Com isso, solucionar-se-ia um dos grandes empecilhos ao cumprimento de suas operosas funções, mormente aquelas voltadas à defesa dos interesses coletivos, em especial para a instrução dos inquéritos civis: a carência de serviços auxiliares burocráticos e periciais. [22]

Não obstante a responsabilidade entregue pelo constituinte e algum avanço, a estrutura material e humana do Ministério Público não teve o mesmo progresso que suas atribuições, tampouco que sua visibilidade e respeitabilidade. Apresenta carências generalizadas, como insuficiência de membros, de funcionários (…) Enfim, não condiz com sua responsabilidade constitucional, mas com a realidade daquela Instituição a quem incumbia, basicamente, a persecução penal que vinha estampada em inquéritos policiais e a intervenção opinativa em alguns feitos cíveis. (SCHIRMER, 2007).

Quando o Parquet, em vez de gerir, refletir e decidir a estratégia de atuação técnico-funcional, ocupa-se com atos materiais perfeitamente delegáveis, que são “atividades-meio” distantes da previsão legal do artigo 129, § 2º, da Carta Magna, está colaborando para esse falido e ineficiente modelo de gestão. Corrigir tal situação exige uma racionalização tanto na “matéria” objeto da intervenção como, sobretudo, na “forma” de execução das atribuições. Ora, considerando que a única atividade efetivamente indelegável no exercício funcional do membro ministerial é a “tomada de decisão” [23], boa parte das tarefas atualmente integradas ao ofício do Promotor de Justiça necessita ser repassada a serviços auxiliares oficiais de assessoramento. Assim, sugere-se que deveria caber a assessores graduados em direito, denominados “assistentes de promotorias”, a execução de tarefas de menor complexidade, tais como atendimento ao público, elaboração de pareceres e exordiais mais rotineiras, acompanhamento de audiências preliminares nos Juizados Especiais ou até mesmo de instrução em feitos iniciados por terceiros [24]. Contanto que haja efetiva fiscalização e orientação, tal distribuição de trabalho afigura-se medida eficiente para canalizar as atenções e esforços dos membros àquilo que realmente importa ao planejamento estratégico-institucional.

O novo modelo deveria cumprir alguns objetivos fundamentais, como: 1) Assegurar a condição de agente político do Promotor de Justiça, o qual, portanto, deverá: a) ter a capacidade de interferir em maior profundidade na realidade social (legitimação e instrumentos de ação); b) estar mais envolvido com a tomada de decisões e menos com atividades operacionais ou burocráticas; c) estar dotado de estrutura de apoio eficiente e adequada a suas necessidades (…) (FERRAZ, 2003, p. 34).

Um modelo de gestão desprovido de específica estratégia de gerenciamento e administração de recursos humanos torna inviável os próprios meios de efetivação das idéias anteriores. Apesar de todas as dificuldades mencionadas, acredita-se que uma política otimista e bem planejada de reestruturação de serviços auxiliares possa mitigar o isolamento do Promotor de Justiça como “centro de atenção” do qual emana toda e qualquer providência, contribuição decisiva para a obtenção de resultados satisfatórios e compatíveis com a expectativa da sociedade e o elevado padrão de exigência constitucional.

III. Conclusão

O drama cotidiano mais aflitivo ao Promotor de Justiça não deriva da complexidade do seu trabalho, nem da carga de serviço judicial historicamente árdua, mas sim da frustrante sensação de não conseguir cumprir a contento as finalidades funcionais necessárias a uma interferência positiva na realidade social (tutela de direitos coletivos e promoção de justiça social). Esse débito político-social decorre da falência do atual modelo organizacional do Ministério Público, que dificulta o cumprimento de sua missão constitucional e impede-o de aprimorar-se na defesa dos interesses primordiais da sociedade. A própria instituição precisa promover reformas internas para solucionar a “crise de identidade” em que está mergulhada, consistente na dissonância entre o seu perfil constitucional e a atuação prática de muitos de seus membros, sob pena de sua inércia contribuir para a redução da credibilidade de que goza junto à sociedade e, conseqüentemente, para a fragilização de sua legitimidade como defensor dos direitos sociais e individuais indisponíveis [25].

Superar este paradigma, em busca da evolução institucional do Ministério Público, exige a projeção de um emancipatório e revolucionário perfil institucional focado na racionalização, regionalização e reestruturação de serviços auxiliares como diretrizes fundamentais para a seleção de interesses metaindividuais relevantes, os quais merecem proteção integral por intermédio de um trabalho uniforme e coletivamente organizado, apoiado por um eficiente quadro de recursos humanos.

Esta nova ordem de existência propõe, em síntese: (1) Racionalizar, para permitir que o Ministério Público otimize sua atuação, atendendo, de forma prioritária e eficiente, aos interesses transindividuais, concentrando esforços para uma atuação extrajudicial resolutiva; (2) Regionalizar, como forma de a instituição assumir uma distribuição espacial própria à sua finalidade, mobilizando esforços e otimizando meios de cumprir o planejamento estratégico-institucional mediante uma atuação uniforme e articulada capaz de emprestar o suporte técnico-administrativo suficiente para a promoção dos interesses sociais; (3) Reestruturar serviços auxiliares, como alternativa imediata e factível para suprir os insuficientes recursos humanos e contornar os rígidos limites orçamentários e fiscais.

Por mais que a seleção e o conteúdo dessas diretrizes não esgotem a problemática, ainda que as idéias lançadas mereçam um debate democrático aberto aos que lutam pela modernização e fortalecimento desta instituição, a mera possibilidade de estas singelas linhas propiciarem reflexão crítica e propositiva sobre o atual paradigma de gestão remete a uma provocação fundamental: enfim, para onde caminha o Ministério Público?

IV. Proposições

1 – Para cumprir sua missão constitucional, o Ministério Público necessita implementar um novo paradigma de gestão, baseado na racionalização, regionalização e reestruturação de órgãos auxiliares.

2 – A racionalização, em vez de constituir subterfúgio para negligenciar atribuições relevantes, traduz estratégico método para, através da crítica permanente, conformar a atividade finalística da instituição ao paradigma previsto no artigo 127 da Constituição da República, segundo o qual a atuação ministerial deve estar necessariamente vinculada ao interesse público, ou seja, à proteção dos direitos coletivos e individuais indisponíveis.

3 – A intervenção do Ministério Público, especialmente no âmbito cível, exige compatibilidade entre a norma ordinária determinante da atuação com o perfil institucional definido pelos artigos 127 e 129 da Carta da República, razão pela qual constitui dever ético-funcional de cada membro, no alto de sua independência funcional, argüir e justificar os fundamentos hermenêuticos e jurídicos em eventual recusa ou abstenção de manifestar-se em determinados feitos.

4 – Mesmo quando há razão para a intervenção ministerial, as manifestações devem limitar-se ao direito e à causa primária determinantes da intervenção, não incidindo sobre discussões periféricas e disponíveis que surjam no curso do feito, tornando-se desnecessário, em certas situações, oferecer promoção em todas as fases processuais, pois a ciência dos principais atos, com eventual manifestação, mostra-se, muitas vezes, suficiente a preservar o interesse público.

5 – Por conta da racionalização, a atividade do Promotor de Justiça na defesa de direitos individuais, ainda que indisponíveis, sempre deve ter como foco a perspectiva de este trabalho repercutir ou viabilizar a interferência na proteção de interesses coletivos, principal objetivo da atuação ministerial.

6 – A racionalização, ao exigir do membro ministerial maior seletividade e critério nas intervenções voltadas à tutela de interesses individuais, torna mais eficiente a sua atividade porque lhe viabiliza priorizar a defesa extrajudicial dos interesses metaindividuais.

7 – A regionalização, ao favorecer a prioridade da atuação extrajudicial em defesa da tutela coletiva, potencializa e maximiza a eficiência na obtenção de transformadores resultados em prol da sociedade.

8 – A regionalização, ao ressaltar a formação de grupos de trabalhos para a execução de projetos coletivos, aperfeiçoa a atuação institucional, pois cria ambiente favorável à troca de informações e à estruturação de novos canais democráticos para discussão e deliberação das ações ministeriais, o que otimiza resultados e valoriza a unidade do Ministério Público, pois afasta a idéia equivocada de que o princípio da independência funcional pode justificar uma inércia não-fundamentada do agente no cumprimento do planejamento estratégico-institucional.

9 – A regionalização, ao redimensionar o espaço de atuação do Promotor de Justiça, estabelece inovadora composição orgânica própria e adequada à identidade constitucional do Ministério Público, sem obrigatória equiparação à estrutura administrativa do Poder Judiciário.

10 – A regionalização estimula maior envolvimento e atuação do Promotor de Justiça Natural no trato da tutela coletiva ao definir estratégias conjuntas de ação, concentrando a discussão dos problemas e disponibilizando melhores recursos materiais para o desenvolvimento coordenado das ações necessárias.

11 – A regionalização pressupõe reengenharia institucional determinante de um novo método de divisão de trabalho e atribuições, o qual tem como base definição geográfico-espacial de áreas que abranjam ‘núcleos ministeriais-pólos’, cuja função será servir de referência orgânico-funcional para subsidiar todo o aporte técnico, material e humano necessário a otimizar o desempenho das atribuições dos órgãos de execução.

12 – A implementação de cada um dos núcleos ministeriais, cujo coordenador será nomeado por meio da designação motivada ou da titularização de cargos específicos, fomentará o engajamento e o envolvimento de membros do Ministério Público em primeiro e segundo grau, até mesmo como forma de integrar e reforçar o sentido da unidade ministerial.

13 – A regionalização, além de consolidar o planejamento estratégico-institucional geral, também permite que cada centro ministerial de referência construa o seu plano regional de metas de acordo com as demandas e necessidades da sociedade local.

14 – Como alternativa para solucionar a insuficiência dos recursos humanos, a reestruturação de órgãos auxiliares de suporte técnico e administrativo mostra-se necessária e preferencial à política de criação assistemática de novos cargos de membros, sendo certo que esta deve ocorrer com base em critérios metodológicos e em dados fornecidos pelo sistema de informação ministerial, sem parametricidade necessária com o Poder Judiciário.

15 – A definição da política institucional de recursos humanos precisa compreender o Ministério Público como espaço profissional para atuação de membros (gestores) e servidores (colaboradores), uma vez que ambas as categorias desempenham atividade voltada ao cumprimento da missão constitucional.

16 – As diretrizes da racionalização e regionalização pressupõem um planejamento estratégico-institucional voltado à reestruturação de órgãos auxiliares, incluindo reserva orçamentária que contemple a formação de equipes interdisciplinares de suporte às matérias coletivas especializadas.

17 – A riqueza do patrimônio humano exige valorização do quadro auxiliar em todos os seus aspectos, notadamente na organização da carreira, no estabelecimento de adequada política remuneratória, bem como na mobilização de esforços para permanente formação continuada e capacitação, pois só assim o Ministério Público disporá de servidores intelectualmente qualificados e animicamente comprometidos com o planejamento estratégico-institucional.

18 – As atividades destituídas de poder de decisão podem ser delegadas e exercidas por órgãos auxiliares, desde que sob a supervisão e coordenação do membro ministerial.

19– Como o Promotor de Justiça deve ocupar-se preferencialmente com a gestão e coordenação das suas atividades, a prática de atos materiais e técnicos de menor complexidade cabe aos órgãos auxiliares, destacada a importância de provimento de cargos de assessores jurídicos.

20 – Conciliando as premissas de racionalização, regionalização e reestruturação de órgãos auxiliares, o Promotor de Justiça deve abandonar a clausura de seu gabinete e manter-se acessível e disponível ao povo, destinatário primeiro e último da sua função, portanto, para fortalecer a legitimidade de sua atuação, deverá, sempre que possível, promover audiências públicas e participar de conferências sociais, com o intuito de buscar subsídios que lhe permitam transformar positivamente a realidade social, verdadeira missão constitucional do Ministério Público no Estado Democrático de Direito.

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VISCONTI, Antônio. Atuação da Procuradoria de Justiça, XV Congresso Nacional do Ministério Público, Gramado, Livro de Teses, 2003.


[1]        Tese aprovada no XXVI Congresso Nacional do Ministério Público, Salvador, 2007. Revista e atualizada.

[2]Exemplificando, na área criminal, isso implica a viabilidade de coordenar o combate à macrocriminalidade organizada, não raras vezes facilitada pela cooptação e corrupção de segmentos do aparato policial, bem como implica melhor assunção do controle externo da atividade policial de modo geral; no cível, tal postura significa optar pela busca de soluções negociadas frente aos conflitos sociais coletivos, utilizando os seus procedimentos para firmar acordos e ajustar condutas, ou seja, considerar o Judiciário espaço excepcional de atuação, em vez de apenas usar os inquéritos civis como meio de coleta de provas para instruir ações civis públicas.

[3]        Foi com a Carta de Ipojuca-PE (13/05/2003) que se iniciou a discussão institucional sobre a racionalização da intervenção ministerial na área cível.

[4] Nesse sentido, quanto ao Mandado de Segurança, um dos pontos mais polêmicos da racionalização, já, inclusive, tramita o Projeto de Lei n° 72/2003, de autoria do Deputado Federal Dimas Ramalho, que, sedimentando entendimento da doutrina majoritária, altera o art. 10 da Lei n° 1.533/51: “Findo o prazo a que se refere o inciso I do caput do art. 7º, será aberta vista dos autos ao representante do Ministério Público, que, no prazo de 5 (cinco) dias, entendendo presente o interesse público, coletivo, difuso ou individual indisponível, proferirá seu parecer, após o que, independente de solicitação da parte, os autos serão conclusos ao juiz para sentença, a qual deverá ser proferida em 5 (cinco) dias, tenham sido ou não prestadas as informações pela autoridade coatora.”

[5]É tempo de sair dos lindes estreitos do privativismo, que tem comandado até hoje a iniciativa do Ministério Público no cível, para somente autorizá-la na defesa do interêsse social, quando afetado êste através de um interêsse privado merecedor de particular proteção, e inovar, ampliando-a no sentido da defesa de interêsses totalmente impessoais, porém com reflexos profundos no bem estar de tôda a coletividade.” FAGUNDES (1961, p. 9) sic

[6] Na atuação individual, o que importa é a “busca pelo amparo coletivo”: (..) sem descurar da importância da abordagem pontual de caráter individual, mostra-se oportuno e valioso, quando possível, conferir proteção coletiva (em sentido amplo) às questões de saúde, tendo em vista a possibilidade de restar concedida resposta unitária a conflitos com dispersão social, evitando ocorrência de prejuízos aos pacientes e a prolação de decisões contraditórias, culminando com a diminuição da sobrecarga da função jurisdicional na apreciação de causas particulares. (MAGGIO, 2006)

[7]  Pode servir de exemplo consulta realizada pelo MP de São Paulo em 2001, quando, dentre os 698 membros que lhe responderam, 97,28% a consideraram importante ou muito importante para a implementação do perfil constitucional, dos quais 88,03% entenderam que ela deve servir para maior eficiência ou eficácia na atuação ministerial e 74,3% atribuíram que tem como objetivo a concentração de esforços voltados aos interesses sociais mais relevantes. Aliás, tal situação não surpreende, pois 96,42% conferem alto grau de relevância à defesa dos interesses coletivos, o que confirma o fato de que a instituição, pelo menos em teoria, enquadrou-se no seu perfil constitucional.

[8] Sobre o mito da caverna, transcreve-se elucidativa lição de Marilena Chauí (Convite à Filosofia, p. 11/12): “Imaginemos uma caverna separada do mundo externo por um alto muro. (…) Desde o nascimento, geração após geração, seres humanos encontram-se ali, de costas para a entrada, acorrentados sem poder mover a cabeça nem locomover-se, forçados a olhar apenas a parede do fundo, vivendo sem nunca ter visto o mundo exterior nem a luz do Sol, sem jamais ter efetivamente visto uns aos outros, nem a si mesmos, mas apenas sombras dos outros e de si mesmos porque estão no escuro e imobilizados. Abaixo do muro, do lado de dentro da caverna, há um fogo que ilumina vagamente o interior sombrio e faz com que as coisas que se passam do lado de fora sejam projetadas como sombras nas paredes do fundo da caverna. (…) Os prisioneiros julgam que as sombras de coisas e pessoas (…) são as próprias coisas externas. (…) Tomam sombras por realidade, tanto as sombras das coisas e dos homens exteriores como as sombras dos artefatos fabricados por eles. Essa confusão, porém, não tem como causa a natureza dos prisioneiros e sim as condições adversas em que se encontram. Um dos prisioneiros, inconformado com a condição que se encontra, decide abandoná-la. Fabrica um instrumento com o qual quebra os grilhões. (…) Enfrentando os obstáculos de um caminho íngreme e difícil, sai da caverna. No primeiro instante fica totalmente cego pela luminosidade do Sol, com o qual seus olhos não estão acostumados. Enche-se de dor por causa dos movimentos que seu corpo realiza pela primeira vez e pelo ofuscamento de seus olhos sob a luz externa, muito mais forte do que o fraco brilho do fogo que havia no interior da caverna. Sente-se dividido entre uma incredulidade e o deslumbramento. Incredulidade porque será obrigado a decidir onde se encontra a realidade: no que vê agora ou nas sombras em que sempre viveu. Deslumbramento (literalmente: ferido pela luz) porque seus olhos não conseguem ver com nitidez as coisas iluminadas. Seu primeiro impulso é retornar à caverna para livrar-se da dor e do espanto, atraído pela escuridão, que lhe parece mais acolhedora. Além disso, precisa aprender a ver e esse aprendizado é doloroso, fazendo-o desejar a caverna onde tudo lhe é familiar e conhecido. (…). Aos poucos, habitua-se à luz e começa a ver o mundo. Encanta-se, tem a felicidade de finalmente ver as próprias coisas, descobrindo que estivera prisioneiro a vida toda e que, em sua prisão, vira apenas sombras. Doravante, desejará ficar longe da caverna para sempre e lutará com todas as forças para jamais regressar a ela. No entanto, não pode evitar lastimar a sorte dos outros prisioneiros e, por fim, toma a difícil decisão de regressar ao subterrâneo sombrio para contar aos demais o que viu e convencê-los a se libertarem também. Que lhe acontece nesse retorno? Os demais prisioneiros zombam dele, não acreditam em suas palavras e, se não conseguem silenciá-lo com suas caçoadas, tentam fazê-lo espancando-o. Se mesmo assim ele teima em afirmar o que viu e os convida a sair da caverna, certamente acabam por matá-lo. Mas, quem sabe, alguns podem ouvi-lo e, contra a vontade dos demais, também decidir sair da caverna rumo à realidade.

[9]”Em um primeiro plano, cumpre observar que o princípio da independência funcional não é um fim em si mesmo. Não é, igualmente, uma prerrogativa que se incorpora à pessoa dos membros do Ministério Público no momento em que tomam posse de seus cargos. Trata-se de mero instrumento disponibilizado aos agentes ministeriais com vistas à consecução de um fim: a satisfação do interesse público, sendo esta a razão de ser do Ministério Público, a exemplo do que se verifica em relação a qualquer órgão estatal. A partir dessa singela constatação, torna-se possível afirmar que o principal prisma de análise deste importante princípio deve ser a sua associação à atividade finalística da Instituição, pressuposto de concretização do interesse público.” (GARCIA, 2005, p. 68).

[10]    Na defesa do patrimônio público, por exemplo, imagine-se a possibilidade de o núcleo regional, cumprindo plano estratégico local, estabelecer o controle preventivo de fraudes em obras públicas, disponibilizando material técnico, informativo e, sobretudo, humano (auditores contábeis e engenheiros) de modo a subsidiar a atuação do Promotor de Justiça da Comarca na verificação da suficiência do projeto básico, da idoneidade da empresa contratada, de eventual superfaturamento ou mesmo na execução da obra em padrão e qualidade incompatível com o acordado, sem falar na possibilidade de monitorar os costumeiros aditivos contratuais feitos posteriormente, através dos quais é possível burlar o critério de menor preço estabelecido no procedimento licitatório correspondente. Na área da infância e juventude, por sua vez, estabelecida a meta de acompanhamento na elaboração e execução do orçamento-criança-adolescente, os pólos ofereceriam aos órgãos de execução auditores contábeis para análise orçamentária, verificando a existência de rubricas destinadas ao funcionamento do Conselho Tutelar e do CMDCA, estrutura de apoio a esses órgãos, despesas com pagamento de diagnóstico e elaboração dos planos de ação e aplicação, essenciais para a efetivação da política municipal de atendimento, bem como comparação de tais despesas com as previstas nas demais rubricas orçamentárias, considerando, inclusive, as carências da rede de atendimento, como estes mesmos autores já defenderam na tese “O FIA e as “so(m)bras” do orçamento público: Da (des)consideração absoluta à otimização de recursos para o Orçamento Criança e Adolescente – OCA”, aprovada por unanimidade no XXII Congresso Nacional da ABMP.

[11]    Fala de Francisco Sales de Albuquerque, Ex-Presidente do Conselho Nacional dos Procuradores-Gerais, constante do prefácio ao Diagnóstico Ministério Público dos Estados realizado em 2006.

[12] Nesse sentido, Ministérios Públicos de Minas Gerais, Santa Catarina e, mais recentemente, o da Bahia, ainda a implantar. O Ministério Público de São Paulo também discute a proposta, conforme conclusões do Grupo de Estudos Aluísio Arruda, de Ribeirão Preto, do dia 23 de junho de 2007, abaixo citadas:

                O Ministério Público deve atuar em nova espacialidade ou territorialidade, fora do conceito tradicional de Comarca, como a regionalização de promotorias, especialmente através de promotorias temáticas, nas áreas de meio ambiente, cidadania, educação, crime organizado e direitos coletivos e difusos.

                A unidade e independência funcional devem ter relação com a conotação política da instituição e atingimento de objetivos estratégicos, de acordo com o plano de atuação e a vinculação do seu cumprimento, em relativização ou limitação da independência funcional.

 http://www.apmp.com.br/diremacao/gruposestudos/conclusoes/conc_aluisio_arruda.htm (acesso em 27.07.07, às 02:30).

[13]             Esse mecanismo relevante vem suprir uma verdadeira lacuna no controle e acompanhamento da atuação do Ministério Público, derivada do fato de as Corregedorias-Gerais, como regra geral, estarem distantes de assumir postura pró-ativa para fiscalizar e orientar a atividade dos Promotores de Justiça que demonstram pouca resolutividade no trato dos interesses coletivos.

[14]    Neste sentido, “Crítica à Razão Dialética”. SARTRE, Jean Paul.

[15] Cargos serão criados quando o sistema de informação ministerial comprovar efetivo aumento do serviço, inclusive pela demanda na área de direitos difusos, não levando em consideração apenas a atividade processual, como, via de regra, tem sido feito.

[16]    Vocabulário citado por Boaventura de Sousa (2005, p. 18).

[17] Da mesma forma, quando se fala em aparelhamento de órgãos auxiliares, ainda que o tema não possa ser aprofundado nos estreitos limites deste estudo, oportuno registrar a importância de este novo modelo de gestão ocupar-se, também, em reformular a estrutura institucional ideal dos “Centros de Apoio”, dos quais há de se exigir: 1) criação e constituição com base em critérios objetivos; 2) estruturação e capacitação para atender com presteza os órgãos de execução; 3) ausência de acúmulo de atribuições executivas como regra geral, salvo situações excepcionais que venham a surgir em benefício da instituição – características infelizmente ausentes na realidade de diversas unidades federativas.

[18] O quadro deverá conter profissionais de todos os campos do saber afetos à atividade ministerial, v.g, assessoria jurídica; auditoria contábil para apurar desvios no patrimônio público e permitir apuração de improbidade administrativa; auditoria médico-sanitária para verificar procedimentos ilegais cometidos no SUS; auditoria ambiental para apurar atividade com potencial de degradação, etc.

[19] Expedição de ofícios e notificações, recebimento de documentos em protocolo, atendimento de telefonemas e comparecimento aos correios para remessa de correspondência.

[20] Experiência interessante de relativo sucesso na estruturação do quadro de pessoal com preferência aos serviços auxiliares reside na composição do Tribunal de Contas, como noticia FERRAZ (2003, p. 91): “Nesse aspecto, [os Tribunais de Contas] costumam adotar modelo de gestão infinitamente mais racional, viável, competente e inteligente do que o do Ministério Público ou do Poder Judiciário. Embora o volume de seus serviços cresça continuamente – porque aumenta o número de municípios e porque são progressivamente mais intrincados os problemas inerentes à fiscalização -, não se verifica normalmente elevação do número de Conselheiros (que, assim, não experimentam declínio em suas parcelas de poder). Ali, o modelo de gestão privilegia a estrutura de apoio e aos Conselheiros fica reservada, sobretudo, a decisão, única atividade realmente indelegável para um agente político.

[21]             O artigo 4º da Lei n º 8.625/93 assegura ao Ministério Público não só praticar atos próprio de gestão (inciso I) como propor ao Poder Legislativo a criação e a extinção de cargos de seus serviços auxiliares (inciso VII), bem como organizar suas secretarias e seus serviços auxiliares das Procuradorias e Promotorias de Justiça (inciso IX).

[22]    v.g, documentar e registrar o impulso e diligências realizadas nos procedimentos administrativos desencadeados, realizar as perícias e auditorias contábeis, ambientais e médicas, dentre outras tarefas imprescindíveis ao bom andamento dos expedientes de apuração de violação de direitos coletivos.

[23]             Comprovando esta idéia, diferenciando tarefas passíveis de serem cumpridas por órgãos auxiliares de atos de execução próprios do Promotor de Justiça, colhe-se didática doutrina de FERRAZ e FABBRINI (2002, p. 71), que exemplifica as atividades típicas do agente político propriamente dito:

             a) estabelecer se um inquérito policial deve ser arquivado ou dar ensejo a imediato oferecimento de uma denúncia; ou se a hipótese em análise recomenda a instauração de inquérito civil ou ajuizamento da ação civil pública ou a interposição de recurso; b) definir o conteúdo de um pedido ou a capitulação de um fato penalmente relevante; c) determinar o teor jurídico da manifestação ou arrazoado perante um Juiz ou Tribunal.

             Indelegável, pois, é o fundamental trabalho de pensar, de decidir, de planejar, de buscar soluções legislativas mais adequadas, de lutar por medidas que possam prevenir lesões a interesses sociais. Indelegável é a administração dos destinos do Ministério Público, como instituição. Tudo o mais pode ser administrado de forma a aliviar a carga de tarefas quase manuais do Promotor ou Procurador de Justiça, dando-lhe mais tempo para fazer o que faz o diretor de qualquer empresa: ser um planejador, um coordenador, e não prioritariamente um executor.

[24] Nesse sentido, entenderam 74,35% dentre os 698 membros entrevistados em consulta realizada no MP-SP, em 2001.

[25] Do contrário, em último grau de possibilidade, o Ministério Público poderá perder sua utilidade social, “tornando-se irrelevante e descartável, assim como outras instituições que, por se negarem a acompanhar os avanços do mundo e a dar respostas que a sociedade almeja e precisa, passaram a cumprir papel menor no cenário político” (GOULART, 2000, p. 37).

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