A concepção do homem como animal social, em Aristóteles

José Márcio Maia Alves [1]

 

Na visão de Aristóteles, o cidadão não existe isoladamente e é sempre parte de um todo do qual pertence inteiramente. Somente como integrante da pólis há como se conceber o cidadão. O homem está destinado à pólis e a ela é imanente.

Incursionando pelo pensamento aristotélico, a pólis seria o estágio final dos níveis de organização do homem. A família seria o primeiro núcleo de organização, cujos líderes naturais – como em todo agrupamento humano em que o intelecto opera – estariam destinados a “prever” a forma e melhor forma de subsistência dos seus integrantes, podendo distribuir tarefas a outros, tudo para executar os meios necessários à manutenção da existência do grupo, tendo-se este como um todo de sustentabilidade indispensável para a existência das partes enquanto integrantes da família.

A partir da família, o homem desenvolve níveis mais complexos de organização em grupo em que a liderança dos senhores será alcançada primordialmente pelo exercício da inteligência e pela origem familiar. Em Aristóteles, há uma probabilidade quase que invencível de se amealharem senhores advindos de famílias que tradicionalmente exercem a liderança. Exemplos desses níveis de organização são os povoados ou pequenos conglomerados humanos que vivem em comunidade e se unem em busca de benefícios e auto-suficiência para o próprio grupo.

A cidade já seria o estágio final de organização, entendendo-se esse termo “cidade”, na concepção de Aristóteles, não tão-somente na extensão compreendida na pós-modernidade, a saber, coincidente com a menor unidade da federação e em que os seus integrantes mais guardam identidade de propostos entre si. Aqui, em Aristóteles, “cidade”, ou pólis, deve ser entendida como Estado, núcleo de organização política e administrativa de um agrupamento auto-suficiente e que, como “todo”, deve se movimentar em benefício exclusivo das suas “partes”, ou seja, do seu povo.

Ainda com Aristóteles, a pólis assegura aos seus membros condições de existência, assim como também de uma “melhor” existência. E é assim porque essa é a natureza da cidade, já que a “natureza das coisas” é exatamente o seu estágio final, ou seja, “o que ela é quando o seu crescimento se completa”. A natureza da pólis, então, é prover e bem prover ao cidadão de forma auto-suficiente e por isso, o homem jamais poderá deixar de buscar e fazer parte da pólis, podendo ser considerado, nesse contexto, como um “animal social”.

Se enveredar por caminhos avessos a esse propósito, Aristóteles não vislumbra o cidadão. Entende que o atributo da auto-suficiência do homem (e não da pólis) e o seu sentimento de não se identificar como parte de um todo o faz revelar-se com singularidade esdrúxula à pólis. O homem, neste contexto, não será homem. Será um animal selvagem – um monstro – ou um deus.

Se o homem não fizesse parte da pólis “seria desprezível ou estaria acima da humanidade”. Reafirme-se: o homem está a ela destinado por natureza. E um traço característico através do qual a natureza induz a essa conclusão é, segundo Aristóteles, a fala. Sem ela como fator delimitador da natureza humana ficaria difícil se ver o homem como “animal social”. Isso porque é através da palavra que ele exprime e distingue o “conveniente do nocivo, o justo do injusto, o bem do mal”, cujo exercício é fundamental para a constituição da cidade como um instrumento para a busca da felicidade.

 De fato, a fala enquanto instrumento de comunicação apresenta-se como traço marcante e determinante para se estabelecer uma divisão entre a civilização e as comunidades bárbaras, bem como ainda entre o homem e os outros animais. Somente ao homem que se comunica é assegurado o poder de se organizar e de traçar o seu próprio destino. Nesse sentido e ao agir como “animal social”, o homem garante a sua existência por identificar os antagonismos e saber traçar posturas que promovam o seu bem e o de sua espécie. A comunicação através da palavra é fundamental para atingir esse desiderato na medida em que o homem está destinado à pólis, cujo objetivo é oferecer sustentabilidade por e para os seus integrantes.

 A partir, então, da premissa de que o homem, como “animal social”, é destinado à pólis, há como se entender os diversos papéis encontrados na sociedade quando se investiga essa finalidade humana por uma questão de natureza. É incursionando por essa seara que se entenderá numa visão aristotélica as relações entre senhor e escravo, governantes e governados.

 Com efeito, a investigação acerca da legitimidade da autoridade do homem como pressuposto para o exercício do poder sempre foi preocupação da humanidade. Em Aristóteles, há uma nítida diversidade entre níveis de autoridade no que tange às qualidades do governante, sem tratá-las adstritamente ou estabelecer qualquer relação diretamente proporcional entre elas e a quantidade de governados. Longe dessa relação, as diferenças dos níveis de autoridade são específicas. “Aqueles que pensam que a qualidade do rei, do dono de uma propriedade e do chefe de família são as mesmas, não se exprimem bem”.

De qualquer sorte, na relação genuína entre governantes e governados pressupõe-se, segundo a concepção aristotélica, uma superioridade dos atributos da alma aos atributos do corpo como que numa relação invariável de subordinação do segundo em relação à primeira.

Revelando uma simbiose inevitável com o exercício do poder, a alma e a inteligência se sobrepõem ao corpo, que está ao seu serviço. E como que reconhecendo sua inferioridade, o corpo, para que não se arruíne, queda-se diante da conveniência de se deixar governar pela alma. Da mesma forma aconteceria com os animais domésticos em relação ao homem e com os homens em relação a si mesmos.

Nessa última acepção, encontra-se a relação senhor/escravo, governante/governado. A liderança que se impõe pela inteligência é o que distingue esses atores sociais e faz com que o senhor reserve a si a posição de “prever”, ao contrário do escravo que, com sua força, somente tem condições de “prover” e executar as ordens do seu senhor. A partir do ponto diferenciador identificado na sutileza da alma do senhor, chega-se à conclusão de que a relação de subordinação que este sujeita o escravo, longe de amealhar descontentamento deste, revela-se proveitosa para ele também. “Mandar e obedecer são condições não somente inevitáveis na pólis, mas também convenientes”.

Só não haverá senhor e escravo (e em relação harmoniosa) se não houver no agrupamento quem tenha “atributos da alma” para assumir lideranças, como é o caso das sociedades de bárbaros em que não há chefes naturais.

Estabelecidos os papéis principais em razão da inteligência, emerge então a concepção de cidadão integral em Aristóteles, segundo o qual é “aquele que tem o direito de administrar justiça e exercer funções públicas”. Então, somente seria cidadão aquele que tivesse o direito de deliberar sobre o destino da pólis.

 Assim, em razão de o senhor e o escravo estarem em uma relação de “hierarquia natural”, é sugestivo admitir-se o senhor na posição de governante e o escravo na de governado, mas por vezes, em razão de “obediência à lei ou por compulsão”, é possível que o contrário possa acontecer. Vê-se, então, com Aristóteles, que “estas considerações evidenciam que a autoridade do senhor sobre os escravos e a autoridade de um governante não são comparáveis, e que nem todas as formas de mando são iguais”.

 De qualquer sorte e em qualquer nível de organização, o que não foge do discurso de Aristóteles é que sempre haverá senhores e escravos, governantes e governados porque isso é natural de seres que pensam, comunicam-se e que são destinados, por natureza, a viverem em grupo.

[1] Promotor de Justiça de Barreirinhas/MA

3 respostas para A concepção do homem como animal social, em Aristóteles

  1. Maria das Dores Pereira disse:

    José, obrigada pelo seu texto, me fez entender muito bem sobre o assunto. Maria das Dores Pereira.

    Resposta: disponha, querida! Obrigado por visitar o nosso blog! Volte sempre.

  2. Adolfo Júlio Porto de Freitas disse:

    Interessante ponto de partida para um estudo mais aprofundado sobre o pensamento desse grande filósofo que na contemporaneidade é amplamente discutido no meio acadêmico, particularmente na perspectiva da vida prática a ética como um princípio fundamental da justiça.

    Resposta: Essa é a ideia, Júlio. Grande abraço.

  3. Preciso da cocepcao do homem na historia da filosofia.

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