Antônio e Enide

Belo artigo de Nonato Reis, publicado no Jornal Pequeno deste domingo e em seu blog pessoal. O jornalista faz um resgate da história de luta do casal Antônio Jorge Dino, médico e ex-Governador do Maranhão e Enide Jorge Dino, para fazerem da Fundação Antônio Jorge Dino e do Hospital Aldenora Bello uma realidade em benefício da saúde dos maranhenses na luta contra o câncer. O artigo ressalta a fibra e o espírito altruísta de D. Enide (foto). Vale a leitura.

Enide Jorge Dino, um exemplo

Em “A Via Láctea”, Renato Russo, morto em 1996, ensina que “quando tudo está perdido/sempre existe um caminho (…) sempre existe uma luz”. Os versos dessa música parecem ter sido feitos para Enide Moreira Lima Jorge Dino, viúva do médico Antônio Jorge Dino, e presidente da Fundação Antônio Dino, entidade responsável pela gestão do Hospital Aldenora Bello. Aos 84 anos, ela esbanja lucidez, charme, vitalidade e um sólido propósito de superar desafios.

Há anos Enide caminha no limite do possível, tentando manter de pé uma obra gigantesca. Seus olhos passeiam alegres pelo passado. Viajam até 1966, quando assume a Rede Feminina de Combate ao Câncer. O marido Antônio Dino recebe a Liga Maranhense de Combate ao Câncer. Começava ali uma odisséia de desafios, lutas inglórias e sacrifícios. Nessa época, o hospital Aldenora Bello era apenas uma fachada com consultório e sala de Raio-X.

Enide e Dino deram então início ao projeto de aquisição de uma bomba de cobalto e à construção de um pavilhão para a sua instalação. Dinheiro, não havia. Os custos do empreendimento eram altíssimos. Foram anos e anos, correndo atrás de doações, apelando para a caridade humana. Enide e suas voluntárias saíam pelas ruas com um enorme lençol desfraldado, seguro nas extremidades, recolhendo donativos.

Tudo caía dentro do lençol: cheques, confecções, mercadorias. Os alimentos eram entregues aos operários que construíam o pavilhão, onde seria instalada a bomba de cobalto, já que não havia recursos para pagar os seus salários. Muitas vezes, Dino recorria ao amigo Nagib Haickel, então dono de armazém, que o socorria vendendo-lhe mantimentos fiado.

Não raro, altas horas, ela flagrava o marido em pé, diante da janela, os olhos perdidos, a face amargurada. Cedo saía às ruas a pedir ajuda. “Fazíamos pedágios nos sinais de trânsito, vendíamos canecos de chope, livros de receitas, tudo o que podia ser transformado em dinheiro”. Na charanga que animava suas caminhadas, destacava-se uma menina morena, a voz firme, ótima trompetista. O mundo a conheceria anos depois na pele de Alcione, a Marrom.

Conseguiram o dinheiro para a instalação da bomba, mas faltavam os recursos para a aquisição do equipamento, que era caríssimo. Enide decidiu procurar o governador da época, Pedro Neiva de Santana, que prometeu ajudá-la. Só que se esqueceu de dizer quanto custava o equipamento. “Ele não perguntou e eu não me lembrei de informar o preço”.

Resultado: o governo creditou dez mil cruzeiros, dinheiro insuficiente para cobrir o valor da entrada. Começava então nova maratona de bingos, sorteios e festas. A bomba chegou da Holanda em 1975, mas teve que ficar um ano, guardada no Porto do Itaqui, esperando a conclusão do pavilhão. Foi instalada em março de 1976, poucos meses antes do falecimento de Antônio Dino (foto), ocorrido a 18 de julho daquele ano.

A morte do marido foi um duro golpe. Ele não era apenas o seu consorte, mas um dos pilares, talvez a viga-mestra da batalha contra o câncer no Maranhão. Viu-se órfã de uma parte preciosa de si. Pela primeira vez a luz piscou dentro do túnel. Não se entregou. “Tinha que continuar a obra idealizada por ele. Era uma forma de cultuar a sua memória”.

Promoveu a fusão da Liga com a Rede e assim surgiu a Fundação Antônio Jorge Dino. Era uma batalha de Davi contra Golias. Naquela época não existia o SUS. Os pacientes traziam a credencial do INPS ou eram simplesmente indigentes, e destes nada recebia. O INPS fazia um reembolso com três meses de atraso, isso numa época de inflação estratosférica, e sem a devida correção. O caixa da Fundação minguou e entrou no vermelho.

As prestações da bomba de cobalto atrasaram. A Phillips, fornecedora do equipamento, ameaçou retomá-lo. Enide tentava de todas as formas arrecadar recursos, mas a situação só piorava. Pela segunda vez viu a luz piscar na escuridão. Foi para Brasília tentar sensibilizar os políticos. Edson Vidigal, na época deputado federal, fez um discurso dramático em defesa do hospital. Deu certo. O governo brasileiro saldou as prestações e a bomba se tornou patrimônio da Fundação.

Em 1983 a crise bateu forte de novo. Os salários de médicos e funcionários atrasaram três meses e eles decidiram entrar em greve. Aflita, Enide caminha, na madrugada, pelos quartos da casa. Diante de uma foto do marido, que parecia acompanhá-la com o olhar, não se contém e desabafa. “A culpa é sua. Como é que você morre, fica aí no bem bom e me deixa aqui com este problema?”.

Reuniu médicos e funcionários e jogou a toalha. Disse que não tinha como pagar os salários em atraso e que a partir daquele momento os destinos do hospital ficavam nas mãos deles. Voltou para casa amargurada. “Tanto trabalho para nada”, pensou consigo. A luz, que antes apenas emitia sinais velados, apagou-se de vez. Mas surge um caminho!

Ao chegar a casa, encontrou um recado de Celso Coutinho, então presidente da Assembleia. Pedia que a telefonasse com urgência! “Só podia ser mais encrencas”. Coutinho quis saber como ia o hospital. “De mal a pior”. “Venha ao meu gabinete”. Que surpresa! Era um cheque! Os deputados, à exceção de um, haviam recebido dois meses a título de serviço extra e tinham decidido doar o equivalente a um mês para a Fundação Antônio Jorge Dino. Dava para cobrir a folha de pagamento. Fez-se a luz novamente!

No final dos anos 80, com José Sarney na Presidência da República, foi novamente a Brasília e, recebida por ele em audiência, pediu ajuda. O governo doou uma nova bomba de cobalto e liberou recursos que garantiram a ampliação do espaço físico e a aquisição de equipamentos. Também obteve a concessão do título federal de utilidade pública.

Sob o fio da navalha, Enide Jorge Dino enfrentou e superou todos os desafios. O Hospital Aldenora Bello tornou-se uma referência no tratamento do câncer. Hoje se assenta sobre uma área de 12 mil metros quadrados, dividida em três pavimentos. Está aparelhado com o que há de mais avançado. Enide quer mais. “Planejo construir mais 100 leitos”. Os custos: R$ 55 milhões! Ela dá de ombros. “Não adianta ser tranqüilo quando tudo está dando certo, e sim, quando as coisas estão dando errado”. Vivo estivesse, Antônio Dino sorriria largo.

fonte: www.nonatoreis.zip.net

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Sobre José Márcio

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2 respostas para Antônio e Enide

  1. Jorge Antonio Dino disse:

    Dr. Marcio!
    Desde que nos encontramos em Cururupu, há alguns anos, senti que estava construindo uma amizade duradoura.
    Tive problemas familiares e, com sua ajuda, resolvermos da melhor maneira.
    Hoje recebo um outro presente.
    É com imensa alegria que vejo no seu Blog palavras ressaltando a luta de meus pais e o artigo de Nonato Reis, publicado no Jornal Pequeno, deste domingo, 29/04/2012.
    Estou imensamente feliz por sua atenção, carinho e por tê-lo como amigo.
    Não tenho como demonstrar minha eterna gratidão.
    Para o Sr. e todos da sua família, um agradecimento especial.
    Um abraço, bem apertado e emocionado.
    Jorge Antonio Dino.

    Resposta: caro amigo, você transborda generosidade. Um abraço a vc, Mãe-Jusa e à turma toda!

  2. Celso Coutinho disse:

    Por meio de meu pai, conheci a luta e a dedicação singular de D. Enide para manter de pé a obra iniciada por seu marido, o ex-Governador Antonio Jorge Dino. Ainda adolescente, lembro da aflição do meu pai diante da situação desesperadora do Hospital do Câncer, o que o fez convocar uma reunião com todos os deputados, à época, na tentativa de convencê-los a doar um recurso a que faziam jus. Esse recurso ainda era pleiteado junto ao Governo, que alegava dificuldades para pagar naquele momento. Meu pai conseguiu sensibilizar o Governo a fazer o pagamento aos deputados, sob o argumento de que os parlamentares fariam a doação integral do respectivo valor ao Hospital do Câncer. Meu pai, então, convocou uma reunião com os deputados, em que lhes tratou sobre as discussões com o Governo, recebendo deles a resposta da solidariedade, tendo todos, à exceção de um, concordado com a doação. Sei que muito mais feliz ficou D. Enide, mas a felicidade do meu pai foi tão grande e contagiante, que me emociona até hoje.

    Para encerrar. Muitos anos, mas muitos anos mesmo, não vejo Jorge Dino. Ainda lembro daqueles domingos maravilhosos no antigo Iate Clube, do esporte náutico, do circuito de regatas. Nunca esqueci, em uma travessia para Alcântara, no memorável catamarã Denise II, com fortes ondas na cerca (local na travessia marítima de São Luís para Alcântara, marcado por fortes ondas, principalmente nos meses de agosto, setembro e outubro), quando sacou a tampa de uma das cabines da embarcação. Nessa hora, de forma quase reflexa, Jorge se jogou no mar e nadou ao encontro da tampa da cabine, sendo trazido, em seguida, à bordo com a ajuda de uma corda que foi atirada em sua direção. Com Jorge e a tampa sãos e salvos, prosseguimos viagem. Um grande abraço.

    Celso Coutinho, filho.

    Resposta: bela lembrança, Celso. Toda essa história é um bonito capítulo da solidariedade maranhense. Sobre meu amigo Jorge Dino, ele está em Cururupu. Procure-o na minha lista do Facebook! Ele vai gostar de renovar o contato com você.
    Abraço!

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