“O Ano Novo”

Pouco importa a convenção de se inaugurar um novo ano; menos ainda a ansiedade por ver raiar o primeiro sol, cair a primeira chuva, sentir os primeiros cheiros, ouvir o pipilar inaugural dos pássaros, ou degustar os primeiros sabores da ceia de um ano inteiro que chega. O que importa é a reflexão acerca do ser humano que se quer ser durante o ano novo, do quanto se pode ser útil, de como se pode servir ao próximo e ao mundo para fazer valer um pouco mais a existência neste plano. Como crianças, precisa-se sentir a indiferença da convenção da passagem para perguntar-se e descobrir o que melhor pode significar a chegada do “ano novo”. Fiquem com essa reflexão inspirada no conto “O ano novo”, de Coelho Netto (foto), que compõe talvez a mais reflexiva de suas obras: Canteiros de Saudades (1927). Tenham todos um 2012 maravilhoso!

O Ano Novo

Falavam tanto do Ano Novo, que eu resolvi esperar a meia-noite.

Cabeceando o sono, aos empurrões daqui, dali, como uma folha no torvelim das águas, eu ia e vinha pela casa cheia, toda em flores e luzes, com a mesa posta e o presepe armado na cômoda. De quando em quando olhava o relógio, mas como não sabia ver as horas, perguntava a um e outro:

“Se ainda faltava muito para o Ano Novo entrar”.

Riam-se de mim. E o alvoroço ia a maior – risos e cantorias, jogos de prendas, danças. E não era só em minha casa; toda a rua estava em festa.

Passavam serenatas. Um rancho de pastorinhas, em marcha saracoteada, levou toda a gente de roldão às janelas, e as loas soavam em vozes meigas deixando no ar um sulco de tristeza.

Sentei-me a um canto, bocejando, com os olhos a arderem-me, como mordidos de fumaça. Despertei assustado num rumor de loucura: eram brindes à mesa, beijos, bênçãos, abraços.

Fora, estouravam foguetes. Sinos repicavam ao longe.

Levantei-me estremunhando e cheguei à sala a tempo de ouvir as últimas pancadas do relógio.

E o Ano Novo? Onde estaria ele?

Como ninguém me atendia (pobre de mim!), vendo a mãe preta sentada à porta da cozinha, a cachimbar, de olhos no céu, interroguei-a.

– Que tolice, menino. Ano Novo… Ano Novo é como Nosso Senhor. Você já viu Nosso Senhor? Na missa, quando a campainha bate, é Ele que passa. No relógio, quando dá meia-noite, é o Ano Novo que entra. É assim.

Eu já fiz sessenta anos e ainda não vi o Ano Novo. Ouço o relógio, vejo a festa, mas o Ano mesmo nunca vi. O céu é um relógio grande.

No relógio de parede que é que a gente vê? os ponteiros andando de roda, um puxando o outro, e os dois levando o Tempo. O sol e a lua não estão lá em cima? Pois então?… Bateu meia-noite. O galo não tarda a cantar. Vai dormir. O que você tem é sono. Eu, velha assim, ainda não vi o Ano Novo, e você, desse tamaninhho, já está com ânsia de ver. Vai dormir que é melhor. Quem dorme é como quem muda de roupa. Vai! Deus te abençoe.

E foi tudo que aprendi nessa noite grande dos Tempos e, até hoje, é tudo quanto sei dela.

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Sobre José Márcio

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