Reflexões sobre a nova classe média

Por Clarissa Xavier Machado Cardoso, Professora e tradutora, no Rio de Janeiro.

Há em nosso país, assim como em todos os outros países existentes no planeta a divisão de classes, recebendo estas os nomes que melhor convier a cada nação, a depender de sua história e cultura. No entanto, esta divisão não muda. Há e sempre haverá o grupo com mais posses e o grupo menos posses. Isto remonta aos mais antigos reinados, tribos e aldeias, e perdura até os dias de hoje, seja na ditadura ou na democracia, na monarquia ou na república, no socialismo ou no capitalismo.

Hodiernamente, entretanto, o contexto em nosso país tem se modificado nos últimos cinco anos. Em virtude de uma política paternalista onde se dá o peixe limpo e cozido e não se ensina a pescar é que se observa a formação de uma classe média emergente caracterizada pela improdutividade, falta de instrução, cultura e boas maneiras, desintelectualizada e desassalariada. Esta classe é a categoria que vem sendo sustentada pelo governo não por um vínculo empregatício, mas sim por um vínculo de “pobreza” aparente. A maior parte dos sujeitos oriundos desta camada da sociedade, em muitas capitais, como no Rio de Janeiro, persiste em habitar comunidades de risco e de lá não deseja sair já que o endereço é a senha para as inscrições nos bolsas-família, cestas básicas, vales e cheques de toda sorte, bolsas escolares e universitárias; e tudo isto vindo não apenas do governo como também de ONGs e instituições religiosas. Isto quando não ganham também apartamentos já mobiliados e decorados, os quais muitas vezes são alugados a fim de que o cidadão retorne a sua antiga comunidade e passe a desfrutar de todas as gratuidades, facilidades e doações que lhe proporcionam um endereço em uma região de risco, marcada pela falta de estrutura, calçamento e saneamento básico, e que vive a desmoronar em períodos de chuvas torrenciais. Contudo, o que isto importa afinal?        

Vale trazer à baila que, decerto, muitos cidadãos provenientes deste grupo trabalham, porém, boa parte deles exige trabalhar pouco e/ou ganhar acima do teto de sua categoria sendo que não tem qualificação nem a devida instrução para a execução da tarefa a qual se propõe. Ademais, alguns sequer admitem assinatura de carteira de trabalho tampouco pagamentos em cheque, tudo para que possam dar continuidade a seus “atestados de pobreza” e “falta de renda” e assim driblar o “leão”. O problema é o hábito que se tornou um estilo de vida: o peixe sempre veio cozido e eles nunca puseram a mão na panela e não sabem o que é um anzol.

Por outro lado, a antiga classe média, desce cada vez mais em um desenfreado e assombroso abismo. Por mais que trabalhe não consegue alçar novos portos seguros ou alegres. Não tem como pagar a escola de seus filhos tampouco uma ajudante doméstica. Logo, trabalham muitas vezes enfermos já que não podem se dar ao luxo de tirar licenças, e/ou vendem suas férias para arrecadar mais um dinheirinho, e trabalham praticamente para pagar contas e impostos não lhes sobrando nem tempo nem dinheiro para o lazer. Pressionados, endividados, desesperados, sem tempo e contando os dias em que podem dormir até além das 6 da manhã e contando as moedas em seus cofrinhos, esta camada da sociedade, na verdade, é que é a coitada: estuda quase sempre até pelo menos o mestrado, está sempre fazendo cursos de aperfeiçoamento e trabalha, muitas vezes, em mais de um emprego, ganhando menos do que merece e menos do que está qualificada; além disso, é constantemente massacrada de taxas pelo governo e apesar disto pagam todas as despesas que fazem e não ganham nada de ninguém porque afinal eles moram em um endereço “digno”, tem carteira assinada e uma conta no banco. E assim eles vivem à espera de um milagre e de alguma prosperidade, ansiando nervosamente para que o governo não lhes tire mais nada e não lhes rebaixe ainda mais. E ainda há quem creia que estes é que são os afortunados e levam uma vida muito confortável. Será?

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Sobre José Márcio

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2 respostas para Reflexões sobre a nova classe média

  1. José Márcio disse:

    Clarissa,
    Estive no Rio de Janeiro no início de abril deste ano. Sua cidade continua maravilhosa!
    Obrigado por frequentar o blog e também por contribuir com produção textual.
    Sobre o assunto, acho que os programas do governo de “distribuição de renda” são importantes porque tiram uma parcela significativa da população da linha da pobreza, para não dizer da linha da miséria. Esse suporte é importante porque tínhamos muitos brasileiros morrendo de fome e sem nenhuma condição de subsistir dignamente com suas próprias forças.
    Contudo, concordo com você quanto à inserção dessas pessoas na chamada “nova classe média” sem uma preocupação com educação e qualificação profissional.
    Na verdade, alguns programas até trazem essa ferramenta agregada, mas é pouco utilizada e, o pior, pouco cobrada e fiscalizada. Precisamos evoluir nesse ponto.
    A prática do assistencialismo populista é realmente muito perigosa. Temos que formar uma “massa pensante” que produza e que contribua para o crescimento do país.
    Acho que isso tudo passa pelo plano político. É preciso que os nossos governantes estejam atentos a isso, bem como os nossos parlamentares para cobrar políticas públicas que associem aumento de renda com trabalho e educação. Seria o ideal porque ao passo que essas pessoas fossem se qualificando e entrando no mercado de trabalho, deixariam de precisar do governo.
    Um grande abraço e obrigado pela contribuição.

    • Parabéns pelo texto, Clarissa. As ressalvas deste seu amigo pobre, que concluiu o curso de Direito graças a uma bolsa integral do ProUni, já foram brilhantemente registradas pelo nosso ilustre anfitrião virtual, Dr. José Márcio, a quem extendo felicitações pelo belo espaço em que são discutidos temas de relevância.
      Cordiais saudações, amigos!

      Resposta: Sânio, prazer recebê-lo aqui no blog. Seja bem-vindo.
      Meu amigo, o estudo é o que existe de mais extraordinário para um homem enquanto “animal social”. Como diria minha avó, “é a ferramenta para a revolução dos humildes”.
      Obrigado pelo elogio, mas quero que fique à vontade para poder se expressar, ok? Você já está na lista de usuários.
      Um grande abraço.

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