Conquistando mentes

Jornada de Debates - 1º dia

Quando os norte-americanos John Grinder e Richard Bandler descobriram a Programação Neurolinguística (PNL), em 1972, em Santa Cruz, na Califórnia, talvez não imaginassem a que ponto o homem desejaria chegar com o poder de influenciar pessoas. No Brasil, um homem sem passado político relevante criou um partido político, arregimentou alguns poucos agremiados, cavou representação no Congresso Nacional e se lançou candidato a Presidente da República. Com exímio domínio de técnicas de PNL, conseguiu ser o primeiro presidente eleito democraticamente pós-1988. O resto, a história está aí para contar…

É impressionante como o poder da comunicação cria mitos, constrói certezas, destrói fortalezas, faz de sábios tolos e de discursos honrosos, lutas inglórias. E esse processo é silencioso, dissimulado, não desperta os incautos e desatentos bem-intencionados.

Mas as técnicas da PNL podem ser usadas para o bem: para reafirmar o justo, o probo, o honroso. Basta que queiramos.

Aí é que digo que é preciso que uma instituição como o Ministério Público se aproprie dessas ferramentas para usá-las para conquistar mentes, entusiasmando-as a se interessarem por seus próprios destinos, proporcionar-lhes a percepção do sentimento de pertencimento da coisa pública, de forma que reajam às iniqüidades por terem a certeza de que os governantes não se podem permitir tratar o público como privado.

Jornada de Debates - 2º dia

Contudo, perceber-se em um contexto global e agir como tal não é fácil. Mas é preciso trazer luz às trevas porque é somente em razão dessa falta de percepção de que a “força” é substantivo “plural” que o mal prospera no trato com a coisa pública.

Por isso é necessário que o Ministério Público arregimente contingente à sua causa. Nessa luta árdua, é preciso ser convincente e ter um discurso que faça com que a população se veja no espelho; usar bem as “portas de percepção”, de Aldous Huxley”, por onde as pessoas interagem com o mundo; trabalhar a partir do “sistema orientador” individual e coletivo dos destinatários da informação; estabelecer rapport, como sentimento de empatia  a criar atmosferas de confiança para que a liberdade aflore na forma de participação; ter consciência de que é cientificamente provado que somente 7% do significado da comunicação está nas palavras e, por isso, fazer questão do contato, da oratória, para que nosso discurso penetre através da linguagem do corpo, pela emoção expressada na voz que faça ecoar propostas honestas, de conteúdo sincero e real. Assim vamos conquistar as mentes dos parceiros ideais: os donos dos infortúnios. E, então, o trabalho do Ministério Público ficará mais fácil porque haverá “envolvimento”.

Jornada de Debates - 3º dia

Em junho de 2006, tivemos um momento assim em Urbano Santos: a 1ª Jornada de Debates Jurídicos, que teve como tema a discussão do controle social da administração pública. Foram três noites de verdadeiro tributo à cidadania. Com a participação dos colegas, hoje de Imperatriz, Cássius Chai, Giovanni Papinni e Frederik Bacellar, e dos colegas de Santa Luzia e Chapadinha, Joaquim Júnior e Fábio Miranda penetramos no interesse de mais de 800 pessoas, por noite. Discutimos os instrumentos de controle social, conselhos municipais, orçamento participativo, execução orçamentária, FUNDEB e o monitoramento da gestão através do Programa Contas na Mão. As pessoas ficaram gratas por perceberem que o Poder Público existe para servi-las e que elas próprias poderiam e deveriam participar do processo de construção de suas próprias felicidades cobrando uma boa gestão pública.

A partir desse encontro a atmosfera mudou em Urbano Santos, as informações começaram a chegar de forma lúcida e o espírito de companheirismo era a tônica da relação Ministério Público/Comunidade. O terreno estava feito para criarmos as redes de controle social.

Mas isso tudo é um processo lento e muda de uma comunidade para outra. É preciso ter sensibilidade para sentir como pensa a massa, como se movimenta, sondá-la e só então ir semeando a mudança para um dia ver a cidadania plena e proativa revelar-se.

Barreirinhas parece estar pronta. Muito em breve pretendo começar a mexer as pedras da transformação.

_______________________________________

Nota: o projeto da Jornada de Debates Jurídicos foi criação do colega Cássius Guimarães Chai, que a promoveu por duas edições no Município de Cururupu, quando foi Promotor de Justiça naquela comarca. Tive o prazer de participar da segunda como palestrante.

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Sobre José Márcio

Blog de José Márcio
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6 respostas para Conquistando mentes

  1. Joaquim Junior disse:

    Caro Márcio

    Me recordo bem do evento. Foi uma honra participar dessa experiência e poucas vezes me deparei com uma platéia tão faminta por conhecimento como naquele dia. Fiquei assutado em saber que já se passaram praticamente cinco anos (parece que foi ontem). Pois é colega … já não somos aquelas crianças que há oito anos atrás tomavam posse no cargo de promotor de Justiça. Mas, por outro lado, o passar do tempo nos leva à certeza de que o entusiasmo em fazer Justiça não era mera empolgação inicial de principiantes na carreira. Ao contrário, tal entusiasmo permanece efervescente em nosso DNA e no dos demais colegas de concurso também, tenho certeza disso. Revelarei aqui publicamente um dado curioso sobre aquele evento. Quando o colega Márcio me ligou convidando para ser um dos palestrantes daquela rica jornada eu aceitei de pronto. Em seguida, o Márcio me perguntou qual dos temas eu gostaria de tratar, mostrando um rol de temas que, em sua maioria eram leves e interessantes. Porém, com o intuito de colaborar o máximo possível com o evento pedi ao Márcio que indagasse aos demais colegas que iriam participar daquela experiência e deixasse para mim o tema que não tivesse sido escolhido por nenhum dos colegas. Poucos dias depois o colega Márcio me liga dizendo qual era o tema que havia sobrado. Imediatamente me arrependi daquele sentimento altruísta inicial, uma vez que “caiu” para mim um tema extremamente técnico, difícil e complicado. Eu não sabia nem pra onde ia, literalmente. Tive de estudar muito e adotar todas as técnicas possíveis para que a platéia não dormisse diante de um tema tão técnico. Mas valeu à pena… depois de apreender sobre o tema, ficou mais fácil constatar algumas irregularidades que estavam acontecendo em minha própria comarca.

    Grande abraço

    Joaquim Junior

    Resposta:
    Júnior,
    Acho que você está certo. Fazer MP com entusiasmo parece ser algo que vem de dentro, que está no DNA.
    Sempre achamos que podemos dar mais, que as dificuldades podem ser superadas pela doação à causa do MP. Eu sou um otimista incorrigível, apesar dos percalços ao longo da carreira. Não consigo ser diferente.
    Sobre a revelação acerca do tema, sua humildade me impressiona. Você foi excelente em sua fala e atingiu o público da forma como eu queria: foi didático, usou linguagem acessível, fez um tema técnico e complicado parecer fácil e íntimo ao homem mais simples de Urbano Santos. Foi tudo muito bom!
    Você é meu parceiro institucional de longas datas, “velho de guerra”, e se eu tivesse que escalar um time do “MP Proativo” no Maranhão, você estaria no ataque.
    Obrigado por aquele momento e por todas as outras vezes que me ajudou a “mexer” com as comunidades das comarcas por onde passei.
    Um grande abraço!

  2. Robert Feitosa disse:

    Dr. José Márcio
    Parabéns, primeiro pelo blog, que está de altíssimo nivel e segundo pela sua iniciativa junto a comunidade!
    A sociedade precisa de servidores publicos que realmente se preocupem com os interesses locais e que tenham este acesso e disponibilidade de atendê-la!
    Boa sorte em suas empreitadas!!

    Resposta: obrigado, Robert. Seja bem-vindo ao blog.

  3. Cássius Chai disse:

    Primo,
    Sinto-me honrado pelas lembranças. A primeira, de prima hora, em haver recebido seu convite naquela ocasião para auxiliar em tão significativo momento para a comunidade local. A segunda, por depois de alguns anos me fazer relembrar aqueles dias, em que irmanados pelo único propósito de difundir idéias e ideais por informação qualitativa quanto ao exercício de direitos e sobre o sistema de garantias, vimos as sementes lançadas resultarem em bons frutos. Pessoas da comunidade que seguiram estudos e sucederam aprovação em concursos públicos, e outros que seguiram o ensino superior, apesar de todas as intempéries.
    Agora, também convido a que participe dos novos projetos que estamos desenvolvendo em companhia de Antonio Coelho (PJMPMA), Weliton Carvalho (Juiz-TJMA) e alunos pesquisadores na UFMA-ITZ, sobre diagnóstico, avaliação e intervenções nas políticas de saúde pública, educação especial, acesso à Justiça e política criminal aplicada aos deficientes, motores e mentais.
    A jornada continua. O desafio é cotidiano.
    Parabéns pela iniciativa!
    Falta apenas relacionar o blog às redes sociais!
    E, de antemão fica o convite para participar do Congresso “Direitos Humanos e Politicas Públicas: Intervenções do Poder Público e Respeito à Cidadania” a ser realizado em Abril em Imperatriz.
    Abraço,
    Chai

    Resposta: Primo,
    Você é minha maior referência no Ministério Público do Maranhão quando penso em um MP proativo em nosso Estado. Suas iniciativas são fantásticas! Não tive como não ficar encantado pela persperctiva da qual você enxerga a instituição, desde a primeira vez em que tive contato com ela.
    Quanto ao congresso, posso contribuir sim. Será um prazer estar na sua companhia mais uma vez, e de todos aí de Imperatriz. Só não poderei se for na primeira semana de abril, pois tenho um compromisso no Rio de Janeiro.
    Um grande abraço fraternal!

  4. José Raimundo disse:

    Por também ser um espaço acadêmico, prefiro chamá-lo de professor José Márcio.
    Lembro-me muito bem da atuação do Ministério Público naqueles anos, na Promotoria de Urbano Santos, (que abrange Belágua e São B. do Rio Preto).
    Tive a oportunidade de participar da I JORNADA de DEBATES JURÍDICOS de URBANO SANTOS (06 a 08 de junho de 2006).
    Naquela oportunidade, vim ter a noção do que era Ministério Público, e da melhor forma, com promotores-professores, hoje posso afirmar que naquele momento foi despertado em mim, a vontade de estudar, cursar uma graduação, …(era professor da rede municipal de ensino).
    Muito antes da Jornada de Debates Jurídicos, ouvia pela rádio uma palestra do Dr. Cássius Guimarães Chai, na Câmara de vereadores, me entusiasmei com aquelas propostas, onde aquele explanador convidava a comunidade para que participasse das questões cotidianas, fazendo ele o convite para as palestras que viriam em breve.
    Fiz minha inscrição com antecipação, chegando no dia, Dr. José Márcio fez a abertura dos trabalhos, congratulando todos os presentes, tivemos as palestras do Dr. Cássius Chai (Conselhos Municipais: compromisso e responsabilidade na fiscalização dos recursos públicos); Dr. Joaquim Ribeiro Júnior ( Orçamento Participativo e execução orçamentária); Frederik Bacelar Ribeiro( O Ministério Publico e a formação de vetores de controle social: O “Programa Contas na mão”; Me parece que o Dr. Fábio Miranda veio a substituir o Dr. Henrique Helder, que não pôde estar presente.
    O organizador do evento palestrou sobre: Fundeb; Conselhos Estudantis e outros mais…
    Depois de tentar “resumir” aquele seminário, gostaria de externar alguns sentimentos que guardo há quase 5 anos, pois graças a atuação de um jovem membro do MPE, tivemos a oportunidade de conhecer melhor tão bela instituição e seu campo de atuação, hoje sou estudante da graduação em direito, e tenho como meta profissional galgar um lugar nesta instituição, a qual tem grande nomes, percebemos como as novas gerações de promotores tem trilhado nas suas mais diversas dificuldades…
    Sou grato ao Srº. , pois despertou naquela comunidade a chama do conhecimento, posso dizer que naqueles momentos, visualizamos a organização dos Poderes Constituídos, as Funções Essenciais à Justiça, a atuação dos agentes políticos, a participação da sociedade na tomada de decisões e etc…, todos os palestrantes foram bem claros, didáticos, perspicazes, pois os ouvintes que ali estavam, representavam todos o setores da comunidade local: estudantes, comerciantes, servidores públicos, políticos, lavradores, aposentados, sindicalistas, ou seja , toda a comunidade ali se fazia presente.
    Atualmente leio diversas obras de membros do Ministério Público, e o mais interessante que muitas dessas são de maranhenses, “pratas da casa”, posso citar o livro de jurisdição Constitucional do Dr. Chai, ( diga-se de passagem, é um excelente orador, tem uma capacidade enorme de atrair a atenção de seus ouvintes e conquistá-los).
    Ah, o Srº. Lembra das músicas? Uma delas foi cidadão de Zé Ramalho.
    Tenho alguns professores que foram aprovados no último concurso do MP, e com alguns deles relatei a iniciativa daqueles promotores inovadores, e pedi que fizessem o mesmo, pois a maior fraqueza de um ser humano é falta de conhecimento, e tendo alguém que leve informações a estes, logo transformarão em conhecimento, parafraseando Cora Coralina, dizendo que : “Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina” e “O saber se aprende com os mestres. A sabedoria, só com o corriqueiro da vida”.
    Pois bem, quero deixar um abraço para o Srº. e que possa continuar trilhando na sua carreira profissional.

    Resposta: José Raimundo,
    Embora passados 5 anos daqueles dias, vejo que você lembra muito bem de tudo! Que bom!
    Suas palavras só ratificam o acerto desse modo interativo de fazer Ministério Público.
    Obrigado pelos elogios. Agradeço em meu nome, e em nome dos colegas Chai, Joaquim, Frederik, Fábio e também do colega Giovanni que participou de forma brilhante daquele evento como palestrante no primeiro dia.
    Fico feliz pelo fato de a “Jornada” ter marcado a sua vida e, de certa forma, estimulado-o para continuar estudando.
    Parabéns pela dedicação aos estudos e quando entrar na nossa instituição, tenha certeza de que o receberemos com o maior prazer.
    Um grande abraço. Seja bem-vindo ao blog.

  5. José Raimundo disse:

    Ah, peço desculpas por não ter mencionado o Dr. Giovani Papinni, acho que ele falou sobre o controle social da Administração Pública, muito boa palestra.

    O Srº não respondeu minha pergunta! Se lembras das músicas??
    Até mais…

    Resposta: claro que lembro! Esse é só mais um talento do colega Chai (rs)!!
    Grande abraço.

  6. José Alexandre Rocha disse:

    Mesmo não estando presente ao evento, aqueles tempos tivemos excelentes programas e Promotores se comprometendo ainda mais com a Instituição.
    Parabéns a você pela continuação do trabalho de Chai(embora em outra Promotoria) e a Chai, mentor.
    Espero que a nossa empolgação retorne e faça nosso MPE cada vez mais forte, onde devemos combater os crimes praticados contra o erário público.
    Abraço
    Alexandre Rocha
    P. S – Parabéns a todos os colegas que participaram do evento

    Resposta: Alexandre, o entusiasmo de fazer um Ministério Público social, mais proativo, é inerente àqueles colegas. A chama não se apagou!
    Obrigado pelas palavras. Agradeço em meu nome e em nome dos colegas que estiveram naquele encontro em Urbano Santos.
    Grande abraço!

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